A metamorfose de João Kafka / conto erótico


Em meio aos chutes dos transeuntes que passavam pela calçada João acordava de susto embrulhada no papelão úmido que lhe assentava a velha alma que não lhe cobria a fome e o vazio das costelas úmidas pela chuva noturna, porém nada mais lhe importava do que algum colega vagabundo lhe roubar os seios novos, que ganhara de um nobre executivo que tinha fetiche por mendigos maltrapilhos, programa bem pago na troca dos favores obrigatórios, já que não existe almoço de graça, diria João, que suspirava aliviado vendo os seus seios refletidos num caco de espelho, lindos, ainda que sujos, que oportunidade me deram os peitos, sorte, um par bem feito espanta até tapa na cara, trás até a sopa no final do dia junto com aquela funcionária da prefeitura de periferia que insistia em arrancar-me da calçada, ora é minha casa, e não quero cortar os meus cabelos negros cumpridos por que aparecem as feridas no meu coro cabeludo, mas eu Maria, sim, era esse o meu nome social ou de guerra, que eu coçava com prazer, pois elas, as feridas, eram meus afetos de ofício, assim como a tosse e o catarro não se fazem de meus inimigos, são meus amigos, deixe-me, assim mesmo como suja funcionária da rua,  que eu era, eu não irei contigo, não entro nesta política inclusiva de perua velha, escura e cega, tenho minhas próprias regras, eu tenho até nome e sobrenome, sou transgênero: Maria Estranheguer, linda, de pele branca e transparente, feita nome de vodca, porém, aceito, pelo banho, não posso entrar na BMW branca do meu amante rico de carro importado e ter finalmente a operação que ele me prometera, ainda mais assim suja, então pensando bem eu vou, mas eu volto, sei que é tua casa este abrigo social com tuas regras e respeito, até aceito, não grito, durmo quieta, faço direito, lavo as mãos, os joelhos, os pés e os dedos, sou inteligente, aprendo, eu sei datilografia, escrevo, tenho modos, sei fazer uma lista, nomear coisas na cozinha, uma vez organizei até um enterro, olha como sou boa de efeito, e o sujeito nem merecia, roubava comida e bebida dos companheiros, mas morreu o vagabundo e eu enterrei, ali, na praça, ninguém reclamou, nem a polícia, pois achavam ele uma desgraça, preto enterrei, com oração e tudo, agora vou para o carro, o motel de esquina é tão confortável, sei do tempo, aprendi, com você mesma, vigiei os ponteiros e sei quando ir e quando vir, sei vigiar e sei punir, e até ficar calada, assim elogiou até meu amante, que me queria sem vestido, não gostava do colorido, ele me penetrou, com seu pênis ereto, louro, lambia minha vagina inventada, torcia minha cintura, criava minhas curvas, sabia que eu era homem no corpo, mas feminina na cabeça e com seus dedos grossos ele me deu uma gravata, e o prazer da carteira assinada, juro, era empregada, lavava, passava e não respondia, tinha até crachá com um cromossomo a mais que me dera a biologia e também fundo de garantia e entre letras e números, digitava, porém, ainda tinha a virtude de ficar calada, mesmo agora de paletó, entrava as nove e saía as cinco, quinze minutos para o cafezinho, comia uma mortadela em forma de coxinha, delícia, e era enrabada pelo meu amante-chefe que me incluía ao cobrar as dívidas de quem a vida penhorava, batia as metas, bancárias, e ainda assim, minha meta aumentava, vendi seguro para a insegurança da minha clientela pálida, branca, e fui deslocada, num dia de pagamento, tomei um tiro no peito de um ladrão que me seguia e vigiava, e, enquanto eu sangrava, vi, minha alma fluir, olhei para o meu corpo e descobri que eu era uma barata, olhei para o ladrão que com meu salário na mão pelo chão se arrastava, olhei para a funcionária, aquela da prefeitura, a mesma que meu novo emprego para a minha ressocialização fiscalizava e ela estava com cara de inseto de antenas ligadas, até o meu amante de inúmeras pernas, casca grossa e asas, voou, para cima da minha meta morfose bancária que ele completara, sim  cumpriu a operação que ele me prometera e eu , agora feliz, era, finalmente, João Kafka  Barata.                    
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