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Mostrando postagens de Maio, 2017

Na língua do português / Júlio Paiva 2017

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Maldita tempestade que sopra meus cabelos envelhecidos pelo tempo de confusos movimentos, emaranhado de sentidos solitários, estes fios amarelados já me fazem inimigos desta ventania, que me corta e me impede, que me atrasa, que me cala, mal respiro, e que homem mantém a sanidade neste redemoinho, cego, não vejo nada, mas ainda sinto, a areia, na solidão rala, eu grito, olha que eu ainda grito, pela minha barriga solitária, cheia de urina, líquida, vou fazer uma vereda em pleno sertão, escorre água dourada e me faça rico bem aqui neste mandacaru abusado, eu mijo, mas olha só, quem é você, o que fazes aí de boca aberta e língua, negrinho verde e folgado, e não tente matar sua sede, o pinto é meu, e se queres beber saia deste monte de areia amontoada, sambaqui, escondido, fugido, esconderijo de chibata, não fala, feche essa matraca, graminhãozinho enterrado, o que és tu, despacho, desde quando nego-velho faz macumba aqui neste deserto sem pátria, fala! Não fala nada, cortaram a sua lín…

A metamorfose de João Kafka / conto erótico

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Em meio aos chutes dos transeuntes que passavam pela calçada João acordava de susto embrulhada no papelão úmido que lhe assentava a velha alma que não lhe cobria a fome e o vazio das costelas úmidas pela chuva noturna, porém nada mais lhe importava do que algum colega vagabundo lhe roubar os seios novos, que ganhara de um nobre executivo que tinha fetiche por mendigos maltrapilhos, programa bem pago na troca dos favores obrigatórios, já que não existe almoço de graça, diria João, que suspirava aliviado vendo os seus seios refletidos num caco de espelho, lindos, ainda que sujos, que oportunidade me deram os peitos, sorte, um par bem feito espanta até tapa na cara, trás até a sopa no final do dia junto com aquela funcionária da prefeitura de periferia que insistia em arrancar-me da calçada, ora é minha casa, e não quero cortar os meus cabelos negros cumpridos por que aparecem as feridas no meu coro cabeludo, mas eu Maria, sim, era esse o meu nome social ou de guerra, que eu coçava com …