O marciano maltrapilho / conto

O maltrapilho se esticava no banco da praça , embrulhado nos cartazes dos seus dizeres políticos que lhe cobriam o corpo, rotina inconveniente que incomodava os moradores da cidade, pois eram desacostumados com a miséria, entretanto o mendigo da praça se manifesta sem pudores com suas flatulências amarelas, provocando os evangélicos marxistas que com sua bíblia debaixo do braço sentem dó do pobre homem que não toma sopa, porém ele dizia, tudo pela revolução, justificava ele, vocês só fazem reformas, nunca tem a coragem da revolução, eu não tomo sopa, mas vocês também não leem sua cartilha, desde quando sovaco lê a bíblia, e se ofende a tiazinha que contra-ataca, aceita Jesus, aceita Jesus, meu filho, que ele lhe dá a sua prole: uma família, e agora é o mendigo que se ofende, filhos, para herdarem o dízimo, obrigação de sindicato, a dita igreja do trabalho, não, nunca, aliás que categoria de trabalhador esse tal Jesus representa, ele nem está dentro das firmas como deveria, vive longe no alto da colina, feito de pedra e cimento, abre os braços para qualquer brasileiro, um bando de pelegos, sinceramente não, nego por três vezes esse tal sindicalista, primeiro comunista para os romanos imperialistas, não, eu  prefiro a praça, ao relento, independente sou eu e o vento, e completa a senhorinha que passava de bicicleta, pobre-coitado, esse pobre homem ainda vai pegar um resfriado, mas deixa, disse o rapaz da padaria, deixe que adoeça, eu já ofereci um pedaço de pão para matar sua fome e ele jogou fora dizendo: que o meu pão era só a reforma, não era a revolução. Mas que raio de revolução é essa que esse marciano reclama tanto, pergunta o guardinha municipal, e tenta explicar o padeiro, bem, diz ele que devemos voltar para casa, como na origem, terra e mata sem o sagrado, e replica o guardinha, como assim, sem o estado, esse mendigo é um anarquista, e se defende o pobre mendigo andarilho: eu não sou anarquista, eu sei muito bem quem eu sou, sou o narrador na mata da quarta linha, mas e você, seu alienado, que nada guarda, sabes quem és, nem sequer tem uma arma, eu posso ser miserável, mas você não tem um estado, cadê sua arma, a verdade é que o estado não confia em ti, provoca, e o guarda humilhado, envergonhado, só diz, estamos vendo isso, seu mendigo, então veja logo que sem arma nada guarda, pobre o seu ofício, ou vai passar a vida cuidando de monumento, estátua, parada, e assim não faz revolução, tenha logo sua arma e atire no prefeito. O quê, isso é um atentado, disse o guardinha que correu diante daquele possível atentado e foi se esconder na guarita assustado com o verdadeiro motivo do discurso de um mendigo, porém a tarde caía e a noite surgia quando o filósofo que escutava e a tempos observava o mendigo na praça, tomou coragem e anunciou, estou atraído por ti, sim, tu és o belo, ama o devir, o eterno vir a ser que esta em mim, também está em ti, disse o filósofo alisando o mendigo por dentro, alisava o peito do mendigo com seus dedos até suas virilhas quando recebeu um beijo do mendigo que disse: viva a república, disse baixinho com o lume de seu coração arco-íris e perguntou o filósofo: que república, a federativa, e o mendigo, claro que não, a república de Platão, a república das ideias, falou acariciando os cabelos do filósofo que acabou colorindo-se e retribui com um longo beijo e depois se despiu dizendo: eu sou um homem honesto, por favor, apague sua lamparina Diógenes e me cubra, estou aqui, acabou a sua procura, mas o marciano reconheceu, eu não sou Diógenes, e você também não é um homem honesto, assim deitou o filósofo no banco da Ágora e fez o dinheiro, como um garoto de programa orou bem na vagina sua filosofia capital para o mercado financeiro: informação é dinheiro, informação é dinheiro, transaram o filósofo e o mendigo no banco da praça, com amores masculinos tão dignos de estampar em camiseta, 100% gay, e com um ganho de cem porcento ejacularam colorindo os novos azulejos, porém raiaria o dia e o guardinha que da guarita espia o sexo denuncia ao delegado as novas cores da praça do prefeito: seu delegado, seu delegado, coloriram os azulejos e esse tal mendigo ainda disse que a razão de uma arma é atirar no prefeito, e o delegado fica indignado, estupefato, quando ficou sabendo, que a razão de uma arma, era mesmo matar o prefeito, mas matar para quê, assim tiram a razão da cadeia, prender é o sentido da reforma não é a revolução, e muito menos atirar no prefeito seria uma solução, então, vou mandar prender esse sujeito, grita o delegado dando voz de prisão, mas o prefeito já sabendo estaciona na praça com um ônibus e um sorriso no rosto,  e declama, eu te perdoo, pobre homem desvalido, sem a sorte de ter na vida um partido, nada se faz sozinho meu amigo,  ainda que seja bom de cartaz e faça propaganda da miséria, a fome não vende nada, seja inteligente e em vez de dar uma arma ao guarda vá te embora para casa, tua passagem, e um ônibus para tua estrada, fique feliz, você vai voltar para casa, e ri o mendigo diante do povo que se aglomerava na praça pensando ser um acidente.  Eu não posso voltar de ônibus, seu prefeito, explica o mendigo, pois fora mesmo um acidente, diz olhando para o povo, eu pilotava minha nave quando uma pane no ventilador do meu disco voador fez com que eu me ejetasse da cabine para não correr o risco de perder minha vida e razão. E qual é sua razão, mendigo marciano, pergunta o prefeito, já perdendo a paciência com o maltrapilho que demora para ir embora, mas o prefeito ainda argumenta: mendigo, seja sincero, minha reforma não basta , azulejei o chafariz, cimentei a calçada, botei banco e assento, então, se querias uma reforma não ficou do seu jeito, e o marciano responde: é claro que não, não quero reforma, quero a minha revolução, e com um único gesto, o marciano faz tudo ficar ao contrário, a raiz para cima e o fruto para dentro com suas copas enterradas em segredo. e o povo diante da mágica acha feio, as flores enterradas e a mangueira centenária enfiada no chão da praça com sua raiz para cima feita copa retorcida, isso é a revolução? Não, grita o intelectual, isso é arte contemporânea, gênio, elogia o professor de artes quando o disco refeito pousa sobre o marciano mendigo e o abduz para dentro. Ele agora feliz que fez sua revolução volta para casa. E o povo aliviado que se livrou do marciano miserável, ainda que aquele marciano não ficasse pedindo comida, um mendigo é sempre um chato, aplaudiram o prefeito, mas o filósofo desempregado, ao ver o prefeito se exibe com a possibilidade de encontrar emprego, gente, vocês não estão vendo, isso não é revolução, a árvore continua sendo árvore,  o fruto está lá, ainda que enterrado no chão! E de todo estranhamento o povo pensou se o filósofo não tinha razão, quando de repente o marciano voltou com seu disco, pousou mais uma vez sobre a praça e gritou, não senhor, não, não, e não, que miséria é essa de dar ao filósofo a razão, a razão é minha, eu fico aqui até amadurecer o fruto da revolução! E o prefeito com raiva, pois achava que já tinha resolvido a questão, olha para o filósofo, serra os dentes para forçar o sorriso e pensa: vou extinguir a filosofia da grade da educação, marciano de novo não!  Assim, o prefeito rápido, num tom desumano, dá um tiro no marciano, que desaparece feito mágica, e o povo contente, feliz  que o prefeito se livrou do indigente, viu que agora estava tudo de novo perfeito, aplaudem a praça limpa com seus novos azulejos, enquanto lá na mata da quarta linha, que é outra forma de consciência, um marciano narra para a margem da nossa indiferença.                
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