Educação à brasileira / Conto erótico



João do muro era um homem de fé na largura e peso do seu arrimo, incorruptível prumo que já media e recusava o trabalho oferecido pelo vizinho, pois de pedreiro não trabalhava mais, bebia sua liberdade no bar da esquina e gritava com o filho trêmulo que odiava avisar ao pai que a mãe lhe cobrara o pão, o trigo, a sorte de um destino, o casamento obrigatório, com papel assinado em cartório e registro, mas como se nem o menino tinha papel passado, certidão de nascimento, nem o filho tinha registro, que dirá a mãe em uma casa de palha onde o dono é ferreiro de pau e sua alma não tem fundação no lodo solto em cima de caranguejos, mangue-lentos, pois João era assim escondido na lama cinza, ele bebia e dormia sem uma palavra, dormia pendurado,  na rede de contas, dívidas compradas no crediário, mas que João crê que a árvore da providência, além do óleo ou das folhas que cobrem suas casas, seria suficiente para pagar as dívidas da mercearia e da alma de todo bom sertanejo.  João era assim, acreditava como um menino na palha da Carnaúba, um dia salvaria sua família daquela alma de sertão, mas que menino no largo sertão de sua infância, de céu parado, não crê que é livre se não fosse o avô e seus declives de cachaça, quente feito navalha que corta a garganta e as palavras de carinho, pois lembra a bebida que a vida é amarga, e colorido só o conhaque mais caro e mais raro entre bois atravessando rios de águas claras, bonito, mas para pedreiro não há muito trabalho ou emprego, quem quer um muro entre o couro e o cavalo, só mesmo o senhor de engenho quando lembra da guerra, mas na cidade, de baianos urbanos, antes província agora municípios para brancos, quem quer, um pedreiro, sem os graus completos e os meus calos que não são mais curriculum de peso. Então para que servem os pedreiros, ora para serem porteiros, vigiar, pois se o muro já fora erguido alguém tem que olhar por cima para vigiar o bandido que não é mais um cangaceiro, é só violento, violento sem razão,  pois não me lembro do motivo da violência de lampião ser o dinheiro, já a violência de doutor me apontando o dedo, dando ordem sobre quem entra e quem sai, ora que entre e saia o mundo inteiro que eu já me cansei dessa coça de ser porteiro, quando doutor me esfrega na perna dizendo que sou grosso, mas, bonito sem verniz, dá-me relógio, panetone, até gravata quando obedeço, não me aponta o dedo não, diz até que é por que sou moreno, ora, quem diria que alguém um dia iria querer alisar a pele de preto, toda vez que eu dirijo sem carteira ele se encosta, ele se encosta em mim e assim aprendi a estacionar como quem dirige boiada de vaqueiros, e se levo uma manada não foi difícil enfileirar os carros na garagem desse edifício, então aprendi rápido, e obedecia deixando a mão fina no meio de minhas virilhas, o doutor me bebia enquanto dirigia, e dizia: não conte pra ninguém. Eu não contava e gostava de servir o que em mim sobrava, nordestino tem de sobra, então eu usava, bem na boca de quem me apontava, entrava e saia, estacionava, agora era eu que apontava com meu dedo grande e afogava o doutor com meu leite de cabra, bom, era bom, depois eu ia para a portaria e aceitava, mas meu filho não, meu filho queria só aprender a ler, o doutor insistia com os braços por cima do meu moleque que deixava esse cordel de rico, de homem da cidade, acontecer, era mão alisando mão, livro que eu não ensino, não ensino não, mas ele gostava, meu filho gostava, todo dia no apartamento do patrão ele lia o mundo inteiro, que perda de tempo, prefiro ter um filho analfabeto do que maconheiro, é sim, que eu sei que esse doutor usa drogas que nem esses estudantes de escola, dizem que depois que entram para a faculdade viram tudo maconheiro, mas também dizem que depois de formados dá mais dinheiro, eu acho esses meninos frouxos, de óculos de vidro pendurado nos ouvidos e depois não enxergam o direito, nunca vi um doutor me defendendo, pra que servem então, eu confio mais no meu muro, nas minhas paredes retadas no barro assentado, ou parede de taipa que eu nunca vi cair não, mas parede de livro, já vi despencar em cima da finada Maria que limpava as estantes, pobre-coitada, acertou bem na cara o tal de código penal brasileiro, mais de um, cumpridos eram aqueles livros pra prender bandido, nordestino e preto, e quem diz isso é meu filho, ele quer tanto aprender a ler o que está dentro daqueles livros, valha-me deus nosso senhor, começa lendo um trecho e acaba o finado dia, o fim do mundo e ele não resolveu a miséria que há em todo urbano brasileiro, é falta de fé, e pra isso eu não preciso saber ler não, só obedeço, por que se a gente não deixa não ganha panetone, e o filho não volta com aquele sorriso estranho do apartamento daquele coronel urbano, advogado de gravata e lenço, com a unha feita e orgulho de ser de outro jeito, eu acho engraçado, mas me preocupo com seus trejeitos, prefiro ter um filho ladrão do que ter um filho viado, afetado feito a finada Maria, meio oferecido sem parede, efeminado, feliz sem motivo, ri de qualquer jeito, o bom homem só ri da boa piada, enquadrada nos costumes, que não ofende ninguém. Mas esse tal de advogado liberal deixa o filho da gente fresco, outro dia era meu filho que se ofendia: ele reclamava da minha cachaça, ora desde de quando cachaça é bebida de drogado, mas ele disse que cachaça não era bom não, e eu bravo ainda reclamei desses homens meio machos que fazem a unha e lavam as mãos, e eu me arrependo de não ter voltado pro sertão, ou lá para a zona dos cocais e agora a mãe chora por ter um filho ladrão, meu filho roubou todas as economias do senhor doutor e fugiu dizendo que era pra comprar uma coleção, enciclopédia de advogado, parece uma fileira de tijolos organizados e ele sem ter avisado roubou o dinheiro e foi ser homem estudado, e eu agora consolo minha senhora amada, não se desespere minha filha que ele volta, ele já me correspondeu, disse, pai, foi o senhor quem disse que preferiria ter um filho ladrão do que ter um filho viado, então, assim, ele me respondeu, e acho que  o que foi que aconteceu é que depois que ele roubou, foi embora, largou o doutor e só me obedeceu.


                        
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