MEU JESUS DE BICICLETAS


       
Conspiração, ou nenhuma consideração desse galho que espalha o ócio inimigo da labuta e da minha natureza    inventiva, cala-te e não respira, arranco-lhe a clorofila, folha, corto-lhe o braço, derramo sobre ti minha arte mais desprezível, o barro. Respira agora, quero ver se tu nasces lambuzado de meu pasto marrom, cago de cócoras, como um velho índio, descasco a mandioca de flecha e facão "é a concupiscência, oportunidade que cria a solidão" e faço de ti carvão, escravo, negro, queimo teus galhos por tentar impedir a coragem do mais alto funcionário dos correios. Feio, que falta de educação, prender a roda de minha obra com tuas raízes, com essa base torta que se espalha querendo, e quer, a árvore quer o céu, azul, anil, e se abre em copas, pura afetação, verde provocação e ainda dá o fruto, cai, desce daí árvore, cai, cai... ai. Que isso, é manga?  

Manga rosa, tu se atirastes em mim, então você vem daí!? Rosa amarela tens a cor da flor ou da febre, e é por isso que todo mundo sabe que teu fruto não é bom.

Desconfio de ti! Por que grito, por que creio que deus há de ouvir, quer que eu seja fiel, mas eu não acredito nesta cor rosa amarelão, eu te descasco em nome do mundo e te como. Hum, visão do paraíso, delícia...

Sabe sou obrigado a ser cordata contigo, de todo seu tronco corpulento, serve bem, serve bem com tua sombra, devia ficar orgulhoso de servir seu senhor, o seu tronco ampara minhas costas, minhas costas largas, de um alto funcionário do governo, engenheiro, engenheiro da informação, sim, de todo esse pais não há nesta terra de tupiniquins, e outras iguarias, (Jardim das delícias), um funcionário segundo Caminha mais bem equipado, preparado, pela engenhosidade de meus contatos. Sim, sou letrado, estudei com um anjo, e sou capaz de prever a notícia posta dentro da carta antes mesmo de ser aberta, aliás antes mesmo de ser enviada, ele me ensinou a ter olho, vejo, ouço, entendo tudo sobre o invisível som e seus caminhos, informo por onde andam as palavras nos salões da mais alta corte, nada me escapa, pela genialidade dos meus esquemas cavei os buracos na posição do correto, e em cada parede dos casarões e sobrados, nos salões de guerra... ( O senhor teceu a fofoca para a guerra ) sim, mas digo no passado, foi assim que eu derrubei uma insurreição de um dentista pretensioso, uma rebelião, apenas por que ouvi, antes mesmo de escrever suas cartas, antes mesmo de postarem suas subversões, acredita? Não, não acredita. Veja aqui, está vendo, é um dedo do gajo, recolhi depois de ele ter sido esquartejado, em praça pública, ora, eu não me envergonho de tal feito, mais cedo ou mais tarde iriam mesmo enterra-lo, peguei um pedaço.

(Criminoso) O quê, isso é crime, está me chamando de criminoso, por quê, o pobre homem arrancava os dentes de seus pobres pacientes e isso ninguém diz nada, era um carrasco, sanguinário, e ainda cobrava pelo feito e não pagava imposto, estava devendo, devendo à coroa, devendo ao governo, isso é honesto, é virtuoso! Entreguei o pobre homem, e tenho como lembrança do meu feito: dele eu tenho um dedo, é da praxes, é o que fora tratado...

(Tratado de traficante) O quê, tráfico? Não, como assim, acha que peguei o dedo para vender os seus pedaços, tráfico, não, não é tráfico, é apenas uma pequena lembrança do homem rebelado...

(Tráfico de influência) Tráfico do quê, da minha flatulência, pum, ora isso sim, sou um flatulento funcionário, tenho a fama de que para cada pum tenho uma oficial e genial ideia, sou conhecido pelo mais novo transporte coletivo que a genialidade humana poderia ter inventado, sabia, a "cruzcicleta", coloquei correia e pedal na cruz transformando-a numa bicicleta para quem pedala e não carrega, o quê, não entendeu, não vê a cruzcicleta, eu sei está coberta, tenho medo que esses selvagens jesuítas queiram tomar a minha invenção, obra-prima, já vi acontecer, até pagam bem, mas vivem dos louros, e isso definitivamente não é justo, eu inventei, então a obra fica com quem pertence, mesmo que ela emperre nesta selva de raízes tortas espalhadas como armadilhas para o mais bravo bandeirante, a obra é minha e fica com quem a conhece bem. 

(A obra não é sua!) O quê, o que foi que disse, a obra não é minha, ora me valha meu pai nosso senhor se eu posso com isso, que tamanha pretensão e covardia diz o gajo lá do alto de seu pontifício, sim, seu pontifício é se esconder nesses verdes variantes irritantes que não cabem numa palheta, pobres imagens pitorescas, desça daí, desça daí velho índio, que tua catequese não me convence...selvagem desça que já lhe descobri...(A obra não é sua, descubra você, ainda não sabes o que lhe enterra nesta santa terra) Santa! O que me emperra é o inferno torto de tuas raízes, ora pá, prendeu a roda da minha cruzcicleta, a mais voluptuosa invenção da engenhosidade do transporte de comunicação! (Descubra então que essa invenção não é tua) Ora deus nosso senhor, fala como o meu pai, vejam só, do alto da copa de uma árvore se esconde o malandro feito cobra no paraíso, e me atenta com sua armadilha para que eu descubra a obra que já é e sempre fora minha, ora não tem sentido, eu não vou mostrá-la a você, é segredo e não traio o meu estado e minha obra por uma manga ou uma sombra generosa.  

(Prova, prova tua obra e descubra o que tu ainda nem sabes, ela, a obra, é que é generosa) O quê, eu não vou descobri-la, ficará encoberta até que eu saia desta armadilha, e ainda há quem diga que o problema é a maçã, o problema é teu, pelo meu atraso, por impedir um alto funcionário da coroa ao exercer o seu ofício de estado, isso dá cem chibatadas se fores um negro escravo, sabia, eu tenho um importante comunicado, eu trago a boa nova, e se ele não for entregue é o fim do teu império, até o seu esconderijo será derrubado por conta de um tal cavalo, para plantar café, ora pois, pois é, não ficará uma única árvore de pé, você deveria estar preocupado, mas não, você quer a minha arma, quer que há descubra para ti já que o tempo é teu aliado. Quanto tempo, quanto tempo vive aí escondido fincado, vejo que já nem tem pés, deve ser só raiz, fiel soldado...

(E se eu fosse soldado, de todos, eu seria o general) Que pretensioso, orgulhoso, convencido é mesmo o diabo, general, qualquer homem de coragem mesmo da mais alta patente não se esconderia no céu, ficaria na linha de frente, postura de um nobre combatente, espada em brasa, empenhada no corte, (Então me cortes se fores homem) O quê? Tu desconfias que não sou varão? Eu te penetro, seu bastardo sem nome! (Então me corte) Ahhhh, canalha, não se desafia assim um homem, eu sou fiel, eu sou varão, em nome do imperador, faca em ti, corto teu tronco, canalha, eu lhe corto, eu lhe mostro, mas não a minha obra, o meu ódio! Cortei!

O que é isso? O que escorre de ti? Que leite é esse, que sai de teu peito, branco, nunca vi uma dor tão pura assim... ( É leite sim, látex, para cobrir a roda de madeira que ti transporta, para além das águas, no norte para muito além de mim, muitos índios perderão suas terras para um futuro estado brasileiro tratado em guerras) No norte,um futuro estado que não diz o nome, fala por parábola, como se provesse os sentidos... você é uma árvore santa? (Há única santidade aqui é tua ignorância, tu me deste o ódio e eu lhe devolvi, siga em frente com esta substância, esquente para além do grande encontro, para além dos que se juntam mas nunca se misturam, são, são rios, riqueza da verde mata, tão diversa que ficará conhecida a floresta, vá para lá que lá tu serás rei, e sem a necessidade de qualquer regra ou postura estética, nem quererá mais tua academia completa.) Como sabes, como sabes que velo pela cadeira da mais real das academias do império das belas artes e pinturas. (É gesso, tua academia de belas cenas) Sim, nunca é mármore, todos na corte não esculpem e ficam fazendo cena... (Fazem estátuas, mas nunca esculturas) Sim, mas eu como presidente, dono da cadeira faço que o dinheiro apareça, trago o mármore, o bronze e as tintas, para a representação necessária da sagrada família,  tu não és uma árvore santa, uma mangueira... ( Você sabe que eu sou uma seringueira, eu sangro e sei a alquimia da riqueza, agora vá, siga a substância e enriqueça) Ora, por um momento pensei que fostes uma mangueira, que ironia, és uma seringueira e atirastes uma manga em mim, o que é isso: mágica, ou seria deus falando comigo, eu até faria um pedido, mas se te preocupas em me deixar rico, já fazem isso com o café, tu mereces mesmo ser derrubada e suas primas, o pau-brasil, serem vendidas como ouro vermelho, ensacadas até o pó! 

(Sim, como mangueira, pau-brasil ou seringueira, não importa, eu serei mesmo derrubada e tu quer mesmo entregar aquela carta) Quero! (Acreditas mesmo que se avisar o grande homem antes mesmo da derrubada salvarás o império e ele em troca te dará o cargo tão cobiçado na academia do mistério.) Creio, sim, eu creio, tenho muito talento, quando "Ele" vires minha cruzcicleta a tecnologia mais rápida para entregar uma carta, uma salvadora notícia, ele reconhecerá que é justa minha cobiça... (Tua obra?) Minha cruzcicleta, eu descubro, eu descubro para ti, mas intercedei por mim.. veja, eu que fiz, aprendi no salões da corte através dos meus buracos como se encaixa cada peça, da fofoca ao bem utilizável, da traição à vaidade de alguns condenados, fiz esta engenharia, minha obra-prima! (Então em mim confias, crês mesmo que sou uma árvore santa?) Sim, eu já ouvi falar de ti, és um padre santo, eu percebi, café, paulista, interessado na minha obra como um bélico jesuíta, por favor, desça daí e me escreva um poema na areia, uma poesia milagreira dessas de atingir o sucesso, um poema desses de impressionar um rei e fazer de mim um literato... (Mas como carteiro já não é o teu talento, por que não um cargo de transporte do correio brasileiro) Não sei, chefe dos carteiros, ficarei no anonimato, quem se importa com o anúncio de uma possível velha morta, ou amantes que enamorados dão fofoca, os periódicos e suas gravuras já fazem seus contratos, mas engenheiro do belo ao simples martelo, feito de ferro, sei que o teu imperador e todo mundo gosta, na academia farei a mais bela obra, a Maria! (A Maria da sagrada família?) Não, a fumaça, o trem que leva a carta, dizem que leva daqui até os confins do mundo que se chama Mogi a terra do caqui! Mas sei que ficarás ofendida, pois de teu tronco faremos carvão, mas pense que levas a notícia, por mim, por ti, pelas Cruzes,  pelo homem te sacrificas, não és Anchieta, o padre santo, eu me ajoelho. (Sim, eu desço, mas não sou Anchieta, sou "Ela") Uma mulher! O que isso? Uma mulher diante de mim! Nua! -E agora sou eu que quero saber: eu desci da árvore, mas quem é que se ajoelha? -Que empáfia, que desonra, uma índia, por isto me atirastes uma manga, mangavas de mim... -Belo trocadilho, mas se olhares no horizonte verás que jaz caiu o império, e longe está o navio do hemisfério. -Senhor, senhor, imperador, não! Da fumaça só sobrou a república! Meu deus já aconteceu a revolução! -Ao exílio o teu amigo. Não, por deus não, mulher faça alguma coisa, sei que de teu amante tu eras importante, não me recordo, mas era um bandeirante, peça tua arma, e eu com minha espada...-Eu não sou literatura, não me confunda,  com Moema ou Iracema, sou mulher e gosto de comer o meu alimento na copa de uma árvore, olhando a paisagem, nunca fui atrás de nenhum homem, branco ainda, soldado, desculpe amigo, mas não tenho solução para o seu caso.

-Está tudo perdido, a obra, o gênio e o conflito... -Não não está perdido, ponha o pau pra fora. -Hã! O que disse? -Ponha sua genitália masculina para fora de tua calça. -Mas ora, que pecado, sou um homem cristão com uma índia eu não saio, sou civilizado! -Então tire o pinto e mije na roda por entre as raízes. -Mijar, fazer xixi, por que? -Por isso, dê-me o seu pinto, agora lave o barro com tua urina, bastante até amolecer a lama e puxe a roda enquanto eu empurro tua obra! -Assim? -Isso, um dois e três salvei um branco mais uma vez. -Minha cruzcicleta está livre, soltou-se das raízes! Mulher abençoada eu te aceito! -Sim, agora vá, para bem longe de mim. -Obrigado, obrigado, bendito-seja deus que fez da mulher sua melhor obra, mas agora que já aconteceu a revolução, perdeu todo o sentido, minha literatura de informação e o quinhentismo, mulher, para quem vou entregar a carta? -Eu sabia que não funcionaria, você e  essa tua obra ridícula. -Por quê, por que não, minha obra é muito mais do que só informada literatura, é o desenho do projeto da minha cruzcicleta que fara Jesus andar de bicicletas, mas parece que aprendeste com aquele soldado e prefere mesmo um cavalo. -Não, prefiro andar com os próprios pés e pelos riachos. -A é, está vendo aquele lá, lá longe, no sudeste lá embaixo, barrueco, rio irregular, que nasce num estado santo, levaria um mês viajando em decassílabos, nas pontas dos pés para alcançá-lo. -Mas com a sua cruzcicleta... -Em um instante, daquele tietê, rio das cobras, depois da retificação, reto como uma linha morta eu estarei lá embaixo. -Então vá. -Mas como, como vou partir, deus apodreceu a roda. -É o tempo é o espaço... -Aonde vais? -Vou embora, eu sou índia, não sou Moema, Jurema e como já disse muito menos Iracema, e eu não tenho cruz, tenho é pena, pobre homem, mas te dou uma alternativa: seja Martim ou Alencar se a cruz é tua, carregue...-Não vá, volte! - Saio e vou ler um livro. -Não, volte aqui! volte aqui e me leia como uma carta chilena, volte por que eu te daria toda a América latina...

Mulheres, mulheres são feias, ainda que a gente as aceite, e queira lhes dar um presente, elas dão um empurrão e depois abandonam o homem à sorte de tua própria obra, mas vão, vão, quem se importa, eu concerto, carrego, a cruz, os ombros, o incerto...à republica por certo não tem nenhum lugar pra mim, mas eu tenho uma cruz, sou até capaz de construir uma torre para o destino de um homem velho, e se podem proclamar a república, por que eu não posso me proclamar num único gesto: até lá embaixo pago meus pecados, digo que é promessa de procissão e todos eles me seguem, você vai ver, eu terei meu próprio império, Jesus, pedala, pois do aço para o progresso eu serei a lata! Vou montar uma fábrica elétrica para fazer placas para as cruzes de quem as carrega,

E com minha burocracia indireta, eu me me auto-proclamo: papa e me torno imperador do Vaticano, controlo as cruzes dos fiéis sem virtude deste mundo mundano.     

E assim, fico rico, com este transporte coletivo salvo os infiéis pela multa de quem não emplaca a cruz do sacrifício, multo quem não licencia, revisa ou faz seguro, eu me escondo atrás do muro ou de uma árvore e multo, o pobre pecador, pobre indivíduo, que sabe que agora sou eu que mando, vou embora, apago a luz, pedalo e fecho o pano.

fecha o pano. 

Fim.













                    

      

Postar um comentário

Meus textos

A metamorfose de João Kafka / conto erótico

Na língua do português / Júlio Paiva 2017