quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O JUÍZO DO DIREITO

O JUÍZO DO DIREITO / Júlio Paiva


O homem tomou leve a gravata de cor vinho com uma estamparia clássica para a representação do rito, um nó, lento, tranquilo, que lhe apertava o pescoço por conta do sacrifício do ofício, é entrar no carro e dividir a conduta com outros motoristas que sem juízo ocupavam seu espaço sem ter seus títulos reconhecidos e devidamente emoldurados nas paredes dos seus ofícios, reclamava, de que medalha ou honraria ostenta esse Opala, último tipo, é verdade, mas não dá um cavalo de pau, como faz o meu Dodge Dart marrom no asfalto desta avenida, dividida em mais de cem motoristas e nada anda por culpa desta política torta, e dizia: veja, aquele fusca preto não é um alemão negro, ora bolas, todo fusca é alemão, cadê o branco, por que acreditam que aquele preto dirigi como um ser humano, e ainda querem que eu acredite que aquela perua, colorida como um artista de rua, cheia de verduras cruas, trabalha pela pátria, é claro que não, cadê a placa, eu anoto, cadê, não tem, que dirá o gosto da elegância cinza de uma calça de cambraia, vai ver dirige de chinelos e camiseta regata, mostrando suas vergonhas, olha para a empregada e ela faz o sinal da cruz indignada e completa: tem razão doutor, assim como toda brasília deveria ser verde e amarela, pois é, e eu digo: não é?  pergunto para a subordinada, que não responde ocupada com a bíblia,  mas deixa, deixa comigo, eu passo com meu carro por eles e jogo meu cigarro, Holywood, pela janela como protesto de cidadão latino-americano, e seja o semáforo aberto ou fechado, eu passo, não vou ficar paralelo com aquela perua esperando o sinal amarelo me exigindo que  divida a atenção com quem eu sequer conheço, imagine, uma perua e um fusca alemão da cor de um preto, e ainda dirigido por um negro e comenta a empregada: perigoso até, e faz mais uma vez o sinal da cruz, preocupada se o motorista vizinho tem seu deus no coração, e eu digo, Maria, ele não tem não, essa classe de pessoa aí, não tem deus, nem o seu, nem o meu, nem tem religião; quer saber, eu vou avançar sobre a faixa por que paralelo com essa perua velha e esse fusca, eu não fico não, o Brasil tem pressa e eu não tenho tempo para essas bobagens humanistas de que somos iguais em todas as regras, não somos, e por isso avancei, sou doutor de carteira e pistolão, é, sou indicado, tenho até carta de recomendação, um favor que meu avô fez para um alto funcionário que me deu privilégios acima dos direitos comuns, você não entenderia, eu sei que não, foi muito trabalho Maria, muito sacrifício para chegar aonde eu cheguei, mas eu consegui, sou juiz, juiz do direito, faço juízo do que é direito ou errado,  portanto eu posso, não preciso respeitar esta cancela que é este semáforo, eu não sou um refugiado, ele nem vê quem é o motorista que está dentro do carro, um semáforo não será eficiente nunca para um desenvolvimento de uma sociedade progressista, nunca,  ele não vê as famílias, ele não vê gente, ele não vê que tipo de motorista dirige o carro, mas deveria,  acha que suas classe é a mesma que a minha, não é não, você limpa, e eu dirijo, ainda que esteja do meu lado no banco deste carro, sou eu que dirijo, pois sou um homem bom, acelero o ronco do meu carro e grito como aviso, sobe pedestre para a calçada que lá é o seu lugar, ainda que você atravesse na faixa,  rua é lugar de carro, ora bolas, e não me venham com bicicletas, por que aí já é atraso de mais, porém o sinal amarelo do semáforo dá defeito e pisca repetidamente por mais de um minuto e meio, impaciente o motorista da perua colorida que está do lado do Doge Dart, desce do seu carro de shortinho curto e camiseta apertada e dá uma bananada no farol que não se desarma, banana pra você, diz o caboclo verdureiro, louro, de cabelo crespo, não é doutor, quem pode com esta tecnologia, atrasa minha viagem e eu vou perder toda a minha mercadoria, reclama o caboclo louro para o doutor, e pedindo conselho, doutor, eu deveria processar o estado, não acha, deveria multá-lo por perdas e danos por conta deste semáforo mal regulado, repetia o caboclo na janela do doutor que constrangido com o cidadão desconhecido evitava olhar para aquele shorts azul tão pequeno de volume gigantesco que quase dava para ver os púbicos louros daquele sujeito, que sem constrangimento coçava sua genitália enquanto protestava, e o doutor fecha sua janela e acelera, pensando em voz alta no volume, pensando no volume, e Maria: doutor o volume do rádio eu já abaixei, de que volume o senhor está falando, e continua o doutor no volante quase em transe, o volume,o volume, e o doutor pensando no volume daquele caboclo no meio de suas pernas, passa o sinal amarelo, o sinal verde, o sinal vermelho e Maria interrompe mais uma vez: senhor, o senhor não acha que está correndo muito, e ele responde, sim, respondo que sim, olhando para ela, o Brasil tem pressa, eu sou um homem de estado e se eu corro e furo as cores do semáforo, Maria, é por que estou atrasado, quando outro carro seguindo o mesmo caminho no sentido contrário bati de frente causando um acidente atrapalhando o fluxo do direito democrático, tudo para e Maria e o doutor morrem amassados, enquanto aquele motorista da perua que no farol foi deixado reclamando de lado, de longe tem dó do estrago no Doge feito logo por outro carro, se pelo menos fossem iguais, da mesma marca, dizia ele, seria um acidente igualitário, assim o caboclo resolveu avisar o policial do acidente, mas o policial avisado pensa se deveria multar aquele fato, por que ele era um doutor de muitos títulos, um homem nomeado, tinha até gravata, então, pensou, pensou e multou a empregada que estava morta, toda amassada, mal arrumada, no banco do lado.  

             

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O marciano maltrapilho / conto

O maltrapilho se esticava no banco da praça , embrulhado nos cartazes dos seus dizeres políticos que lhe cobriam o corpo, rotina inconveniente que incomodava os moradores da cidade, pois eram desacostumados com a miséria, entretanto o mendigo da praça se manifesta sem pudores com suas flatulências amarelas, provocando os evangélicos marxistas que com sua bíblia debaixo do braço sentem dó do pobre homem que não toma sopa, porém ele dizia, tudo pela revolução, justificava ele, vocês só fazem reformas, nunca tem a coragem da revolução, eu não tomo sopa, mas vocês também não leem sua cartilha, desde quando sovaco lê a bíblia, e se ofende a tiazinha que contra-ataca, aceita Jesus, aceita Jesus, meu filho, que ele lhe dá a sua prole: uma família, e agora é o mendigo que se ofende, filhos, para herdarem o dízimo, obrigação de sindicato, a dita igreja do trabalho, não, nunca, aliás que categoria de trabalhador esse tal Jesus representa, ele nem está dentro das firmas como deveria, vive longe no alto da colina, feito de pedra e cimento, abre os braços para qualquer brasileiro, um bando de pelegos, sinceramente não, nego por três vezes esse tal sindicalista, primeiro comunista dos romanos imperialistas, não, eu  prefiro a praça, ao relento, independente sou eu e o vento, e completa a senhorinha que passava de bicicleta, pobre-coitado, esse pobre homem ainda vai pegar um resfriado, mas deixa, disse o rapaz da padaria, deixe que adoeça, eu já ofereci um pedaço de pão para matar sua fome e ele jogou fora dizendo: que o meu pão era só a reforma, não era a revolução. Mas que raio de revolução é essa que esse marciano reclama tanto, pergunta o guardinha municipal, e tenta explicar o padeiro, bem, diz ele que devemos voltar para casa, como na origem, terra e mata sem o sagrado, e replica o guardinha, como assim, sem o estado, esse mendigo é um anarquista, e se defende o pobre mendigo andarilho: eu não sou anarquista, eu sei muito bem quem eu sou, sou o narrador na mata da terceira linha, mas e você, seu alienado, que nada guarda, sabes quem és, nem sequer tem uma arma, eu posso ser miserável, mas você não tem um estado, cadê sua arma, a verdade é que o estado não confia em ti, provoca, e o guarda humilhado, envergonhado, só diz, estamos vendo isso, seu mendigo, então veja logo que sem arma nada guarda, pobre o seu ofício, ou vai passar a vida cuidando de monumento, estátua, parada, e assim não faz revolução, tenha logo sua arma e atire no prefeito. O quê, isso é um atentado, disse o guardinha que correu diante daquele possível atentado e foi se esconder na guarita assustado com o verdadeiro motivo do discurso de um mendigo, porém a tarde caía e a noite surgia quando o filósofo que escutava e a tempos observava o mendigo na praça, tomou coragem e anunciou, estou atraído por ti, sim, tu és o belo, ama o devir, o eterno vir a ser que esta em mim, também está em ti, disse o filósofo alisando o mendigo por dentro, alisava o peito do mendigo com seus dedos até suas virilhas quando recebeu um beijo do mendigo que disse: viva a república, disse baixinho com o lume de seu coração arco-íris e perguntou o filósofo: que república, a federativa, e o mendigo, claro que não, a república de Platão, a república das ideias, falou acariciando os cabelos do filósofo que acabou colorindo-se e retribui com um longo beijo e depois se despiu dizendo: eu sou um homem honesto, por favor, apague sua lamparina Diógenes e me cubra, estou aqui, acabou a sua procura, mas o marciano reconheceu, eu não sou Diógenes, e você também não é um homem honesto, assim deitou o filósofo no banco da Ágora e fez o dinheiro, como um garoto de programa orou bem na vagina sua filosofia capital para o mercado financeiro: informação é dinheiro, informação é dinheiro, transaram o filósofo e o mendigo no banco da praça, com amores masculinos tão dignos de estampar em camiseta, 100% gay, e com um ganho de cem porcento ejacularam colorindo os novos azulejos, porém raiaria o dia e o guardinha que da guarita espia o sexo denuncia ao delegado as novas cores da praça do prefeito: seu delegado, seu delegado, coloriram os azulejos e esse tal mendigo ainda disse que a razão de uma arma é atirar no prefeito, e o delegado fica indignado, estupefato, quando ficou sabendo, que a razão de uma arma, era mesmo matar o prefeito, mas matar para quê, assim tiram a razão da cadeia, prender é o sentido da reforma não é a revolução, e muito menos atirar no prefeito seria uma solução, então, vou mandar prender esse sujeito, grita o delegado dando voz de prisão, mas o prefeito já sabendo estaciona na praça com um ônibus e um sorriso no rosto,  e declama, eu te perdoo, pobre homem desvalido, sem a sorte de ter na vida um partido, nada se faz sozinho meu amigo,  ainda que seja bom de cartaz e faça propaganda da miséria, a fome não vende nada, seja inteligente e em vez de dar uma arma ao guarda vá te embora para casa, tua passagem, e um ônibus para tua estrada, fique feliz, você vai voltar para casa, e ri o mendigo diante do povo que se aglomerava na praça pensando ser um acidente.  Eu não posso voltar de ônibus, seu prefeito, explica o mendigo, pois fora mesmo um acidente, diz olhando para o povo, eu pilotava minha nave quando uma pane no ventilador do meu disco voador fez com que eu me ejetasse da cabine para não correr o risco de perder minha vida e razão. E qual é sua razão, mendigo marciano, pergunta o prefeito, já perdendo a paciência com o maltrapilho que demora para ir embora, mas o prefeito ainda argumenta: mendigo, seja sincero, minha reforma não basta , azulejei o chafariz, cimentei a calçada, botei banco e assento, então, se querias uma reforma não ficou do seu jeito, e o marciano responde: é claro que não, não quero reforma, quero a minha revolução, e com um único gesto, o marciano faz tudo ficar ao contrário, a raiz para cima e o fruto para dentro com suas copas enterradas em segredo. e o povo diante da mágica acha feio, as flores enterradas e a mangueira centenária enfiada no chão da praça com sua raiz para cima feita copa retorcida, isso é a revolução? Não, grita o intelectual, isso é arte contemporânea, gênio, elogia o professor de artes quando o disco refeito pousa sobre o marciano mendigo e o abduz para dentro. Ele agora feliz que fez sua revolução volta para casa. E o povo aliviado que se livrou do marciano miserável, ainda que aquele marciano não ficasse pedindo comida, um mendigo é sempre um chato, aplaudiram o prefeito, mas o filósofo desempregado, ao ver o prefeito se exibe com a possibilidade de encontrar emprego, gente, vocês não estão vendo, isso não é revolução, a árvore continua sendo árvore,  o fruto está lá, ainda que enterrado no chão! E de todo estranhamento o povo pensou se o filósofo não tinha razão, quando de repente o marciano voltou com seu disco, pousou mais uma vez sobre a praça e gritou, não senhor, não, não, e não, que miséria é essa de dar ao filósofo a razão, a razão é minha, eu fico aqui até amadurecer o fruto da revolução! E o prefeito com raiva, pois achava que já tinha resolvido a questão, olha para o filósofo, serra os dentes para forçar o sorriso e pensa: vou extinguir a filosofia da grade da educação, marciano de novo não!  Assim, o prefeito rápido, num tom desumano, dá um tiro no marciano, que desaparece feito mágica, e o povo contente, feliz  que o prefeito se livrou do indigente, viu que agora estava tudo de novo perfeito, aplaudem a praça limpa com seus novos azulejos, enquanto lá na mata da terceira linha, que é outra forma de consciência, um marciano narra para a margem da nossa indiferença.                

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Oscar na curva do corredor / Conto erótico

Ele alisa o rosto leve acariciando o maxilar em tom observador com seus dedos grossos que especulam sua própria forma, a forma do pensar, forma em que os dedos levam as mãos ao queixo, fixando o olhar na janela do seu apartamento que iria do chão até o teto, iria, se não fosse pelos olhos críticos do fotógrafo que ignora os limites do para-peito, pois numa kit-net há mais janela do que apartamento, apartamento de um profissional que se arrisca na paisagem e se lança com sua máquina para um mergulho no trânsito absurdo que segue se fingindo lento, ainda mais para quem fotografa do trigésimo sexto andar  do bloco b, e isso é apenas por uma foto-teste de ajeitar o foco da lente, manualmente, mas não por que o trânsito fotografado aqui de cima seria uma foto atraente, atração seriam aquelas imagens de meninas fotografadas, bem de perto, no nível da calçada, noturnas, mal comportadas com seus batons vermelhos e curta saias que aparecem mais do que os joelhos, lindas, nada tímidas, de amarelo ouro nos fios de cabelos, ruivas taciturnas, cor de uva, querendo ser mais do que a curva mostrando os bicos dos seios, mas nunca, os bicos são bonitos porém o que vale é o volume dos peitos, sim, isso sim, é foto para mim. Tirei, tirei sim, uma, duas, ou mais de uma para que eu ficasse satisfeito, reveladas e depois penduradas nas paredes do meu apartamento, por exemplo, o eros caridoso da Japonesa generosa, caridosa mesmo, que exibia seu pênis feliz com um sorriso no peito, doava duro na boca do mendigo sortudo a sopa de leite quente que derramava às colheradas nos lábios sujos, em plena praça da miséria independente que era aquela república de indigentes. Naquele dia fotografei, fotografei sim, bem no ato do pau ejaculado que era o estado de uniforme noturno, eu vi, vi tudo acontecer ali, gratuitamente publico sem que nenhum policial estadual exigisse o preço, foi mesmo assim, bom pra mim, que fotografei o desespero satisfeito do mendigo que matou a sede em veias latentes segurando firme e engolindo crente, as bolas devidamente raspadas, desenhadas para o ofício em forma de coração de cupido, lindo falo masculino na mulher do oriente, falsa japonesa, mas cristã honesta por que não pensou em dinheiro, não cobrou nada, mesmo usando guia como qualquer espírita ou sequer uma taxa para sua igreja como uma evangélica legítima, sim, ela não cobrou e eu fotografei o desapego. Assim, neste dia subi correndo para matar as saudades de mim mesmo e pendurar a foto na parede do meu apartamento de que fotografei o meu próprio desejo, sempre tive medo de esquecer o ato já que em sexo nada faço desde de que eu descobri que a máquina fotográfica é o meu verdadeiro falo, sim, não transo, não tenho contato, e de um cigarro oferecido eu sequer dou um trago, por mais bonita que seja a menina eu me calo,  pois eu prefiro sair com a fotografia do que com a modelo de fato, então pensei vou subir para o meu quarto pelas rampas do meu prédio por que o arquiteto comunista acredita que degraus de escada é coisa de capitalista que quer sua ascensão social, eu não, para mim a rampa em linha reta é funcional apesar de que eu também gosto desses corredores curvos que escondem as centenas de portas amarelas fingindo ser provinciano um prédio monumental, mentira de estética socialista por que para o eco é tudo igual, e eu que fotografo com os ouvidos naquele dia fui capaz de ouvir os gemidos e os sapatos benditos daquela japonesa que por trás vinha me seguindo, corro, e tenho a sorte de que as curvas deste corredor mostram as portas aos poucos, ela não verá qual é a porta que vou entrar e terá que me procurar, coloco a máquina em cima da mesa, na beirada da sala com a porta entreaberta e quando menos espera ela, disparo iluminado mais um momento a revelia, entrei e armei minha máquina e só pelos ouvidos fotografara o barulho do salto indignado no corredor que pousa o meu capacho, pronto, cliquei, de susto nela e ela ao perceber o flash deu um tapa na minha máquina gritando endiabrada uma língua que ninguém fala exigindo seus direitos. Calma, disse eu, assim você quebra minha máquina, e respondeu ela, quebro até a sua cara! E eu reclamei, mas por que você fica tão brava se eu nem vou lucrar com essas fotos e nem publicá-la, mas teimou ela dizendo: eu não quero que elas sejam usadas, eu estou vendo as manchas no carpete desta kit-net, empoeirada, da-me a foto, ou vou gritar o suficiente para te dar uma multa que você não vai ser capaz, são mais de 800 reais!  Não!  E não é que a traveca jogou-me no sofá pegou nas minhas bolas e começou a apertar, doía lento, e eu parei de respirar quando expliquei quase vermelho: era o meu desejo fotografar o desapego. Ela então tirou as minhas calças, abriu as minhas pernas e as pôs para cima beijando minhas virilhas e meteu a língua no meu ânus descrente depois penetrou seu pênis e me deu uma comida, cínica, você se veste de mulher e sai com os homens e come! São mil reais, disse ela tranquila, e eu dolorido do cu até o umbigo cansado naquele dia não tive outra saída paguei a modelo da fotografia, e ela se vestiu, sorriu e disse que dessas curvas deste famoso prédio esta era a sua tangente, falou alisando seus culhões bem no meio, e ainda disse: mas pode ficar com as fotos que eu não tenho apego, e eu respondi então devolve o meu dinheiro,  e ela explicou, eu não tenho apego pela foto, mas comer o fotógrafo da fotografia esse era o meu emprego, por que você não faz o mesmo empregue o seu desejo, e saiu batendo a porta me deixando este conselho, e hoje eu não fico mais só me estimulando com a fotografia, tenho contato, mudei de lado, hoje desisti da minha máquina fotográfica e optei pela palavra por que nela cabe qualquer imagem de minhas reflexões num conto erótico bem feito, virei escritor de imaginar o eros do amor e creio que aceitei o seu conselho, pela caneta empreguei o meu desejo, e não me preocupo mais, pois sei que o sol muito quente de verão entra até o parapeito e o sol de inverno chega até o fim do meu apartamento, e tudo se encaixou no jeito, Niemeyer é um gênio.









                           

domingo, 25 de janeiro de 2015

Educação à brasileira / Conto erótico



João do muro era um homem de fé na largura e peso do seu arrimo, incorruptível prumo que já media e recusava o trabalho oferecido pelo vizinho, pois de pedreiro não trabalhava mais, bebia sua liberdade no bar da esquina e gritava com o filho trêmulo que odiava avisar ao pai que a mãe lhe cobrara o pão, o trigo, a sorte de um destino, o casamento obrigatório, com papel assinado em cartório e registro, mas como se nem o menino tinha papel passado, certidão de nascimento, nem o filho tinha registro, que dirá a mãe em uma casa de palha onde o dono é ferreiro de pau e sua alma não tem fundação no lodo solto em cima de caranguejos, mangue-lentos, pois João era assim escondido na lama cinza, ele bebia e dormia sem uma palavra, dormia pendurado,  na rede de contas, dívidas compradas no crediário, mas que João crê que a árvore da providência, além do óleo ou das folhas que cobrem suas casas, seria suficiente para pagar as dívidas da mercearia e da alma de todo bom sertanejo.  João era assim, acreditava como um menino na palha da Carnaúba, um dia salvaria sua família daquela alma de sertão, mas que menino no largo sertão de sua infância, de céu parado, não crê que é livre se não fosse o avô e seus declives de cachaça, quente feito navalha que corta a garganta e as palavras de carinho, pois lembra a bebida que a vida é amarga, e colorido só o conhaque mais caro e mais raro entre bois atravessando rios de águas claras, bonito, mas para pedreiro não há muito trabalho ou emprego, quem quer um muro entre o couro e o cavalo, só mesmo o senhor de engenho quando lembra da guerra, mas na cidade, de baianos urbanos, antes província agora municípios para brancos, quem quer, um pedreiro, sem os graus completos e os meus calos que não são mais curriculum de peso. Então para que servem os pedreiros, ora para serem porteiros, vigiar, pois se o muro já fora erguido alguém tem que olhar por cima para vigiar o bandido que não é mais um cangaceiro, é só violento, violento sem razão,  pois não me lembro do motivo da violência de lampião ser o dinheiro, já a violência de doutor me apontando o dedo, dando ordem sobre quem entra e quem sai, ora que entre e saia o mundo inteiro que eu já me cansei dessa coça de ser porteiro, quando doutor me esfrega na perna dizendo que sou grosso, mas, bonito sem verniz, dá-me relógio, panetone, até gravata quando obedeço, não me aponta o dedo não, diz até que é por que sou moreno, ora, quem diria que alguém um dia iria querer alisar a pele de preto, toda vez que eu dirijo sem carteira ele se encosta, ele se encosta em mim e assim aprendi a estacionar como quem dirige boiada de vaqueiros, e se levo uma manada não foi difícil enfileirar os carros na garagem desse edifício, então aprendi rápido, e obedecia deixando a mão fina no meio de minhas virilhas, o doutor me bebia enquanto dirigia, e dizia: não conte pra ninguém. Eu não contava e gostava de servir o que em mim sobrava, nordestino tem de sobra, então eu usava, bem na boca de quem me apontava, entrava e saia, estacionava, agora era eu que apontava com meu dedo grande e afogava o doutor com meu leite de cabra, bom, era bom, depois eu ia para a portaria e aceitava, mas meu filho não, meu filho queria só aprender a ler, o doutor insistia com os braços por cima do meu moleque que deixava esse cordel de rico, de homem da cidade, acontecer, era mão alisando mão, livro que eu não ensino, não ensino não, mas ele gostava, meu filho gostava, todo dia no apartamento do patrão ele lia o mundo inteiro, que perda de tempo, prefiro ter um filho analfabeto do que maconheiro, é sim, que eu sei que esse doutor usa drogas que nem esses estudantes de escola, dizem que depois que entram para a faculdade viram tudo maconheiro, mas também dizem que depois de formados dá mais dinheiro, eu acho esses meninos frouxos, de óculos de vidro pendurado nos ouvidos e depois não enxergam o direito, nunca vi um doutor me defendendo, pra que servem então, eu confio mais no meu muro, nas minhas paredes retadas no barro assentado, ou parede de taipa que eu nunca vi cair não, mas parede de livro, já vi despencar em cima da finada Maria que limpava as estantes, pobre-coitada, acertou bem na cara o tal de código penal brasileiro, mais de um, cumpridos eram aqueles livros pra prender bandido, nordestino e preto, e quem diz isso é meu filho, ele quer tanto aprender a ler o que está dentro daqueles livros, valha-me deus nosso senhor, começa lendo um trecho e acaba o finado dia, o fim do mundo e ele não resolveu a miséria que há em todo urbano brasileiro, é falta de fé, e pra isso eu não preciso saber ler não, só obedeço, por que se a gente não deixa não ganha panetone, e o filho não volta com aquele sorriso estranho do apartamento daquele coronel urbano, advogado de gravata e lenço, com a unha feita e orgulho de ser de outro jeito, eu acho engraçado, mas me preocupo com seus trejeitos, prefiro ter um filho ladrão do que ter um filho viado, afetado feito a finada Maria, meio oferecido sem parede, efeminado, feliz sem motivo, ri de qualquer jeito, o bom homem só ri da boa piada, enquadrada nos costumes, que não ofende ninguém. Mas esse tal de advogado liberal deixa o filho da gente fresco, outro dia era meu filho que se ofendia: ele reclamava da minha cachaça, ora desde de quando cachaça é bebida de drogado, mas ele disse que cachaça não era bom não, e eu bravo ainda reclamei desses homens meio machos que fazem a unha e lavam as mãos, e eu me arrependo de não ter voltado pro sertão, ou lá para a zona dos cocais e agora a mãe chora por ter um filho ladrão, meu filho roubou todas as economias do senhor doutor e fugiu dizendo que era pra comprar uma coleção, enciclopédia de advogado, parece uma fileira de tijolos organizados e ele sem ter avisado roubou o dinheiro e foi ser homem estudado, e eu agora consolo minha senhora amada, não se desespere minha filha que ele volta, ele já me correspondeu, disse, pai, foi o senhor quem disse que preferiria ter um filho ladrão do que ter um filho viado, então, assim, ele me respondeu, e acho que  o que foi que aconteceu é que depois que ele roubou, foi embora, largou o doutor e só me obedeceu.


                        

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Os juízes da escuridão




A nave carcerária azul metálica carregava leve três anjos alienados por magnetos inversamente opostos para suspender suas ações já que condenados ao perpétuo e suspenso tempo os levariam para a zona seis onde a falta de luz e total escuridão faria o julgamento perfeito segundo a nova tecnologia de direitos, pois eram juízes os próprios condenados de si mesmos e ninguém lá poderia interferir ou advogar em defesa dos anjos e muito menos gostariam os novos seres humanos de asas fabricadas que por competência aprenderam a voar para não serem atirados no abismo pela ciência dos verdadeiros santos que eram os querubins de asas naturais daquele tempo. Desde o século passado em 500 mártires de tempo, os anjos naturais com o sacrifício de seres humanos empurravam os homens para a massa de um buraco negro, mas isso, tinha sido proibido pelo governo e por decreto foram condenados três querubins a priori que incitavam os irmãos humanos ao sacrifício no abismo, tudo era pela ciência, justificavam os anjos, pelo seu próprio arbítrio, arbítrio dos próprios homens, diziam os anjos cientistas, mas será, será mesmo, pois os homens tinham que se jogar sem questionar os motivos desta ciência, magnetizavam a dor dos homens oprimidos que sem senso crítico pulavam sem pensar, como uma pena, um corpo jogado, descarrilado sem sentido, caíam os homens em seus abismos. Porém, foram presos os anjos, falando bem no pé do ouvido dos homens-humanos, pois nem todo homem é humano e os policiais armados com elétricos magnetos pegaram os anjos assassinos que faziam apologia do sacrifício em nome da ciência.  Finalmente chegaram ao local aonde seriam depositados os anjos condenados que se quer respiravam já que estavam suspensos, mas a misericórdia dava a nova justiça um átimo de segundo para a explicação dos réus sobre seus motivos, as explicações de como eles deprimiam os homens mortais, sabia-se que se retirava a sertralina em partes até que a glândula derretia e os homens não queriam viver mais, e era essa a explicação de como os homens com suas asas metálicas fabricadas de prata leve que flutuava, tinham o desejo deprimido; e de asas comprimidos, desistiam, não voavam mais e assim poderiam ser jogados no abismo para medir a queda desses animais, pobre homens que lhes davam ouvidos, pulavam no abismo, mas neste futuro a justiça é universal e naturalista, os anjos cientistas só poderiam ser condenados pela natural consequência, nunca pela arma, mas o estado dava aos anjos uma oportunidade de se auto-julgarem bem na borda antes de serem atirados como condenados de asas cortadas, e um deles ofendido reclamava, esse governo cortou as nossas reais asas e nos fizeram de comuns como se fossemos homens de asas fabricadas, como olho por olho e dente por dente,  depois de todos os homens que matamos querem que nós anjos cientistas também nos sacrificamos, em nome do religioso, e dizia o outro, não, não em nome do religioso, em nome do exemplo, por isso querem que nos joguemos neste buraco negro, e é injusto dizia o terceiro, eles só conhecem o funcionamento deste buraco negro por que joguei seus filhos e medi o cair dos homens, conclui o terceiro anjo. E assim, eles, anjos, no escuro sem advogado de acusação ou defesa ou de algum cientista bem aventurado que lhes proteja e que diga algo em nome de suas ciências, foram abandonados bem na borda do buraco, pois neste novo sistema os condenados tem que no escuro resolver os seus atos, só ouvem sua própria voz e não veem nada, simplesmente tem que resolver o que fora sentença por sua própria consciência, ou nunca sairão da borda da estrela negra, e sofrendo a angústia de seus impasses, reclamava e insistia o segundo anjo na procura da razão, o que o governo quer é que acreditemos em santos, mas o outro condenado dizia que não, querem nos forçar a aceitar a religião, e o outro grita, em deus, no atraso, somos anjos contemporâneos, sem igreja, apenas a ciência, pois é abençoada ciência disse o outro, fomos nós, por ela que lhes ensinamos a máquina que dobra o tempo e o espaço como nave azul que agora nos condena, quantas vezes por decair os homens aprendemos a dinâmica deste buraco,  o controle da luz e da matéria e agora o que o governo espera é que nos joguemos sem nossas verdadeiras asas, ciência deste buraco feito um gás liquefeito que tudo atrai e nada passa. Com certeza, e se você não der sua própria sentença, neste escuro submundo da natureza, vai se cansar de se equilibrar na borda desta esfera e cairá sem tentar se salvar pela sua própria defesa.  Isso não, disse o primeiro anjo indignado, penso, que se tenho que buscar minha própria consciência posso buscar minha própria salvação, pensou, chegou a uma conclusão, que era ele cientista que dava ao governo a certeza da razão: todo homem cai  e depois disso sumiu o anjo libertado daquele precipício nefasto. Já os outros dois ainda duvidaram qual era os reais motivos de terem sido proibidos e foram sugados pelo buraco, há quem diga que os dois últimos foram os que se salvaram, mas há também quem diga que o anjo que sumiu é o único que fora libertado, pois ninguém sabe o que há do outro lado do buraco e nem qual foi a auto-sentença de razão inventada por aquele anjo que no escuro do seu juízo, pensava, mas a verdade é que do buraco nunca nenhum homem que fora jogado voltava, então o governo falava que os anjos cientistas na verdade mesmo com os sacrifícios para compreenderem a dinâmica daquele buraco negro, eles, os anjos, eram cientistas que não sabiam de nada, apenas invejavam os homens de asas fabricadas, era esse o real motivo dos assassinatos feitos pelos anjos que foram presos, e foi assim que concluiu o governo.

                   

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O mosteiro de saturno / Ficção Científica


As naves de nitrogênio líquido se solidificavam no atrito do espaço se alinhando na forma de três conchas que acendiam no contato com os primeiros detritos que provinham de saturno, planeta conhecido por suas pedras que giravam esféricas, elípticas como escudos para intrusos humanos, mas logo os seres que exímios pilotavam os suprimentos necessários para aquele mosteiro presidiário pensaram sua estratégia, mentalmente, diante da nova física que concomitantemente existiam como naves e como pedras, e assim se passavam por elas sem nenhum dano, impossível para o olho nu humano observar tal fenômeno, mas a nave e as pedras ocupavam dois lugares ao mesmo tempo no espaço como planos de consciência, que resistiam com sua própria frequência, independentes, sem um interferir no outro, e logo as naves pousavam trazendo os suprimentos necessários para aqueles pobres condenados, pena, pena o mosteiro azul profundo e escuro ter que existir num satélite para homens do crime, e não para a ciência de soluções tão popular no novo regime. O novo regime previa que toda ciência quando verdadeira traria soluções, mas ainda que neste futuro a nova ciência tenha descoberto a cura para os heterossexuais, ainda assim, os homens continuaram existindo, não configurando solução pelo método científico, então por decreto o homem foi preso, e assim se fez, na dobra, na dobra do espaço tempo que deixava o satélite invisível transformaram o mosteiro em um presídio de pedras azuis marinhas polidas com a forte gravidade de seus climas, lisas eram as paredes, retilíneas, e leves, muito leves diante do clima, ar irrespirável e tempestuoso, nuvens de gazes azul petróleo, como um céu contaminado, triste, e solitário. E o pobre condenado novato, provavelmente entediado pela reza silenciosa que ele não entendia, confuso pela prisão sem julgamento, fugia, aos olhos nus dos seres da nave que descarregavam os alimentos e não se importavam com o tal sujeito, pois ele era objeto, apenas, e por mais desesperado que o ingênuo presidiário olhasse para os soldados com medo de ser pego, mais uma vez capturado, ninguém, nenhum soldado largava de sua disciplina de descarregar a necessária doutrina, era incrível, o nível de organização e foco tão necessário para levantar pesado fardo, fazer flutuar pela mente, em conjunto, em dupla de soldados que descarrilavam a água e a comida até o mosteiro, caixa a caixa, uma a uma, ficavam claras as regras onde o trabalho era mais importante que o próprio condenado que fugia, e fugiu, partiu, correu por um, dois, três segundos e pouco mais de cinco minutos não respirava, logo se sufocava arranhando o peito e caía morto, como objeto inanimado. desfigurado pelo pulmão entrecortado. Já os soldados com seu uniforme de metal líquido estranhamente flexível se protegiam daquela atmosfera agressiva e continuavam seus ritos de trabalho como uma oração tibetana, repetiam e se repetiam até o trabalho ser terminado. Quando se tem na doutrina o trabalho, como religioso sentido, a eficiência é a idolatria que se persegue em qualquer oração do dia a dia, mas é claro que se assim, acontecesse um erro, seria um grande pecado ou ainda obra do diabo, mas não existiam regras sem razão, fora cortado toda decoração do rito em nome do tempo e objetivo conquistado, eles eram perfeitos, os soldados, concluíam seu trabalho em frações necessárias onde o tempo calculado era computadorizada matemática e nenhum policial soldado se importava com fugas em massa ou individuo que escapa, pois a condenação natural do tempo atmosférico faria sim ou não para aquele pulmão sem saída. E era sempre não, para qualquer condenado, já que o sim era mera dúvida, sutil, que talvez alguém, um dia, suportasse a densidade daquele espaço. Mais dois presidiários se exercitavam de frente para a parede do presídio como judeus que oram diante do muro das lamentações e lamentando seus ofícios, balançavam o corpo repetidamente para frente e para trás, para frente e para trás, dizendo: por que me prenderam aqui, por que me prenderam aqui, por que me prenderam...  e numa pausa de oração viram a fuga do amigo de presídio e a morte incomensurável, desmedida daquele clima que não perdoa quem respira. Injusta é a morte sem medida, que régua pode medir tamanha tragédia daquela categoria, respirar é legítimo, disse um dos condenados, e o outro emenda, é mais do que isso, que sistema se sustenta sem o ar comprimido, corrido em nossas veias, pulsar é lícito, que dirá o coração, vamos condená-lo então? É claro que não, respondeu o outro, mas deve haver uma saída, relativa, pois se tudo está fechado é por que aberto fora um dia. Sim, mas não vejo uma porta, não vejo nada senão o peso escuro do clima lá de fora. Reclamou o presidiário desesperançado, e completa, que o que mais lhe angustia é estar preso naquele mosteiro sendo muito bem tratado, mas ainda condenado pela falta de resposta, pela falta de sentido, continuar como neste hospício sem um objetivo, apenas sendo preso, e nada mais do que isso. Somos presos, presidiários simplesmente, não há motivo aparente. É esta a condenação, pergunta um deles, estar preso sem saber?  Sim, mas por todos esses anos orando diante desta parede, eu descobri algo importante, eles não sabem. Eles não sabem? Pergunta admirado, indignado o colega presidiário. Eles não sabem por que nos prenderam aqui. Não é possível, deve haver algum saber. Diz o bom amigo largando do seu muro e insiste: mas alguém deve saber o motivo. Sim, esse alguém sou eu, finalmente eu sei, é o sistema. Mas que sistema, o não saber, o ignorar injusto, ser indiferentes a nós doentes pela procura, doentes da falta de motivo, doentes pela falta de resposta até que adoecemos pela angústia. Sim, não saber é o sistema, é o novo direito, só não contavam com a angústia. Não entendo, por que a ignorância é um direito? Houve um tempo que pensei em minhas orações que o saber era perigoso, que eles estavam escondendo alguma coisa, ou que achavam que sabíamos demais...Mas...Mas não é isso, pois nem eles sabem, e é por isso que ignorar por completo os motivos trancafiando pobres coitados neste mosteiro faria de alguma maneira encontrar o real sentido, tanto que temos como regra obrigatória pensar a saída e nós daríamos a eles a resposta permitida. E que resposta seria essa que nos fosse permitida se nada se sabe quem tem autoridade para permitir tal resposta pela reflexão ou prisão dessa filosofia. Ninguém, caro amigo, ninguém. Respondeu o colega e o outro encontrou uma solução, concluiu que, mas então, permissão, só lá fora pela morte, depois de morto se justa é a salvação, deus talvez daria resposta a tudo como permissão. Sim, mas não é isso não, houve um tempo que as igrejas e suas certezas tudo se sabia, como nascer, crescer, e até morrer salvo pela religião, mas não, não foi isso que aconteceu, foi guerra, civil e santa, mataram e morreram até que aboliram as certezas e fundaram o sistemas do não saber, a ignorância.  Mas e daí , isso não nos trás respostas, não responde a questão, por que nos prenderam aqui sem crime e julgamento?  Mas insiste e completa o colega de prisão: por isso mesmo, não saber virou um direito, sistêmico, e é por isso que estamos presos, sem saber através da angústia que nos causa encontraremos a resposta. Mas discorda o colega de presídio: que tolice, não pode ser, e se há alguma verdade nisso, não funciona como querem suas certezas, eu vou sair. Não saia, vai morrer, e isso é suicídio. A verdade está lá fora amigo, e não nestas paredes de mosteiro como um presídio. E saiu o presidiário motivado pela sua indignação e logo a atmosfera de inválidos invalidou o seu pulmão, morreu asfixiado como seu irmão e para a angústia do amigo os soldados não fizeram nada e nem ao menos viram a fuga de mais um na prisão. Triste pela perda do colega de cela, triste pela perda do colega de oração,  sentou e chorou enquanto se aproximava um policial fardado e como soldado lhe entregou um uniforme prateado para usar por cima de sua pele morena e cabelos crespos de profunda cafuza descendência. Estranhou o condenado, mas disse o policial com sua missa que ele entendera que entre a ignorância e a certeza, vive a verdade neste sistema, e ele agora estava livre, para navegar no ambiente de outras atmosferas além do mosteiro de saturno no exercício diário e diurno do entre, entremeios, como arqueólogo na busca de um sentido verdadeiro.  O policial creu e creram que aqueles condenados entendendo poderiam achar, e assim era o sistema, quem compreendesse a saída talvez encontraria como arqueologia da verdade o sentido de estar: livre. Mas livre para procurar e não pela liberdade, assim, um condenado na sua busca encontrou a morte e o outro presidiário encontrou sua pena, virou policial e entrou para o sistema.     

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Zona das sobras QW8 / Ficção Científica



Estavam nus como atletas gregos, de pele moura, com seus suores morenos dispostos ao exibicionismos de suas ginásticas, exibiam seus músculos como medalhas de guerra, competiam pela estética, pelo corpo perfeito, observavam um ao outro em silêncio, no olhar desviado como quem mede a largura, como quem mede a altura do respiro a cada peso de 15 quilos que se erguia no esférico contender rosa de passar os presos seu tempo, eles se entreolhavam, pois longa era a jornada dos cegos presidiários, políticas sem sentença, mas são os olhares dos ponteiros genéticos das presidiárias que indicam a evolução do ato político quando nada se sabe ao espaço, ao destino sem referência, viagem de si mesmos eram aqueles dois de duas que mudavam seus gêneros com o olhar, com a facilidade de ser simplesmente, mas nem homem e nem mulher, apenas modernos incapsulados como comprimidos eram eles, eram elas, eram seres se movendo estáticos na contradição que era se mover assim, e navegarem capitados para serem logo depositados e mais do que isso, com o passar do tempo já não eram mais nada, nem homem e nem mulher, estavam suspensos no ar, apenas exercitando a espera de quem não mais pondera, apenas levantando pesos na máquina de ginástica de pernas abertas. E ela se deitou sobre ele, e ele se deitou sobre ela como homem de sede, beijou os seios, pareios, sua vagina que desviava o pênis, penetrou sem dor, pois era belo o exercício do sexo, e mesmo sendo capazes de se auto-copularem, tocar os corpos nus era muito melhor, com seus uniformes de seda, pele perfeita, pois o tempo não envelhecera mais ninguém e assim sabiam em que zona estavam, próximos do planeta azul claro, antigo, e de muitos impasses políticos, mas fora planeta esquecido no último conflito e ao perceberem o choque aterrizaram, a porta da nave se abriu e eles se entregaram, e num último suspiro ejacularam seus passatempos e o sexo, e a porta deu um emergente aviso: esta nave se explodirá em 30 minutos ao contar de três toques surdos.  Correram, correram os dois, correram pelo planalto daquele planeta conhecido apenas por documentários, digitalizados como ensino de governo, correram sem olhar para trás e a nave ao se encher de gás, explodiu. Linda imagem, da nave esférica e rosa que se aqueceu num vermelho magenta, lançando seus pedaços no azul do infinito espaço e desapareceu. Os dois prisioneiros caíram com o choque da explosão como coincidências um sobre o outro como se combinassem os seus destinos, e poderiam prosseguir assim se não fosse o cadáver ao lado, branco, de um ser estranho que parecia dormir, mas estava morto, meio solto, meio enterrado, com os braços jogados e seus olhos escuros, apodrecia solitário, e um olhar mais ao lado fez os dois enxergarem aonde foram depositados, um mar de sobras, que ruía ao sentido do vento, som estranho que ressoava por entre as sucatas de naves espaciais inutilizadas, seres espaciais de diferentes galáxias adormeciam, tranquilos no seus sonos profundos, jaziam como cemitério para moribundos, e eles entenderam que morreriam do mesmo jeito, trancafiados num estranho planeta sem água e sem comida e também sem saída, assim um deles começou a orar, de joelhos, como católico de susto, diante do inferno que estavam como prisioneiros, um lixão, uma zona de sobras, e pela força da oração um sinal foi visto no céu descendo como cadente aviso, e nosso amigo com sua fé sorriu crendo que aquela luz, seria mesmo uma dádiva, uma nave, talvez água lançada para os esquecidos homens que foram condenados sem saber qual eram os seus pecados, pois no pragmatismo do novo julgamento, não havia mais necessidade de provas, não havia mais necessidade do porquê, apenas a conveniência assumida de se livrar do que ninguém mais queria, os padres, os religiosos e seu poder. Mas a fé sempre vence na adversidade pela mágica que cria razões além das aparências e os dois seguiram atrás da luz na esperança de ser mais que um meteoro, como providência o céu traria o príncipe da paz que explicaria tudo aquilo que não se sabe, a verdade. Foram ansiosos, de mãos dadas, apressando os passos até chegarem em alguma estrada com o senso do espírito que lhes explicassem os motivos de estarem condenados sem advogados, mas no caminho, era difícil, seguir aquela luz, que caiu no infinito, próxima de uma cratera, distante, e doravante tropeçavam em algum outro ser, todos mortos, todos aos pedaços, mas mesmo numa atmosfera de gases tóxicos manteriam a oração para passarem por este estágio quando um duvidou, mas e se for mesmo apenas um meteoro, e se for apenas uma sonda que recolhe ou trabalha, ou apenas deposita mais corpos nesta casa nefasta, e respondeu o outro que teriam que caminhar ainda que não tivessem mais fé ou certeza de nada. Caminharam, como seres humanos e seus longos passos, um se apoiando no outro como enamorados, mas que depois de um beijo como descanso fariam a reflexão necessária sobre o destino de suas vaginas e espadas, eram hermafroditas e se auto-reproduziam então seria fácil vencer a solidão, mas desde o final do impasse político que lhe assegurava o planeta terra, as naves que se escondiam, não se escondiam mais, os seres espaciais extraterrestres perderam o interesse pela terra, afinal nada encontraram nela, que lhes melhorassem a genética, então largaram, indiferentes, deixaram o planeta como depósito de ninguém, pois no tempo feliz que viveram os dois, o grande já voltara, disse toda a verdade sobre o sexo que lhe fora perguntada, disse, sexo é sexo, tão somente, mas depois da trágica explosão demográfica a vida virou, um plano de sexo só, sem as moralidades comuns ou convenientes, até que, as igrejas não eram mais necessárias, e os padres foram então renegados, exilados em diferentes galáxias, eram inconvenientes, um peso para o governo e seus motivos sistêmicos, como o necessário controle de natalidade e além do mais depois de toda verdade dita, sem dogmas, o que fazer com os padres hermafroditas, independentes, que se auto-reproduziam, mas eles de fé, juntos, seguiram, mesmo depois do beijo já em delírio pela fome e sede até que... Lá estava a nave, branca, reluzente, mas não para os novos padres indigentes, e de lá saiu a fila de criancinhas, renegadas, com defeitos, autistas, cegas, algumas humanas pouco utilitárias e outras de outras sistemas de estrelas para serem ali, naquele planeta, depositadas, todos os pequenos que eles não queriam mais, algumas já estavam mortas e eram colocadas em caixas e depositadas em solo indígena e ignoradas, e disse o homem, o mais alto funcionário do governo orgulhoso com cara de dever cumprido, falou, pronto, depois daquela explosão demográfica e de toda verdade dita aqui as pessoas poderão ser esquecidas. O homem ruivo, de cabelo e barba, fechou a porta da branca nave e sem resgatar os padres seguiu sua viagem: zona das sobras qw8, zona da mata, do planeta terra partindo, o serviço com êxito foi finalmente concluído. desligando, e os padres hermafroditas descobriram que depois de toda verdade dita suas igrejas perderam seus sentidos e eles eram as sobras de um sistema que continua se reproduzindo.




              

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O JESUS DE BICICLETAS


       
Conspiração, ou nenhuma consideração desse galho que espalha o ócio inimigo da labuta e da minha natureza    inventiva, cala-te e não respira, arranco-lhe a clorofila, folha, corto-lhe o braço, derramo sobre ti minha arte mais desprezível, o barro. Respira agora, quero ver se tu nasces lambuzado de meu pasto marrom, cago de cócoras, como um velho índio, descasco a mandioca de flecha e facão "é a concupiscência, oportunidade que cria a solidão" e faço de ti carvão, escravo, negro, queimo teus galhos por tentar impedir a coragem do mais alto funcionário dos correios. Feio, que falta de educação, prender a roda de minha obra com tuas raízes, com essa base torta que se espalha querendo, e quer, a árvore quer o céu, azul, anil, e se abre em copas, pura afetação, verde provocação e ainda dá o fruto, cai, desce daí árvore, cai, cai... ai. Que isso, é manga?  

Manga rosa, tu se atirastes em mim, então você vem daí!? Rosa amarela tens a cor da flor ou da febre, e é por isso que todo mundo sabe que teu fruto não é bom.

Desconfio de ti! Por que grito, por que creio que deus há de ouvir, quer que eu seja fiel, mas eu não acredito nesta cor rosa amarelão, eu te descasco em nome do mundo e te como. Hum, delícia...

Sabe sou obrigado a ser cordata contigo, de todo seu tronco corpulento, serve bem, serve bem com tua sombra, devia ficar orgulhoso de servir seu senhor, o seu tronco ampara minhas costas, minhas costas largas, de um alto funcionário do governo, engenheiro, engenheiro da informação, sim, de todo esse pais não há nesta terra de tupiniquins, e outras iguarias, (Outras delícias), funcionário mais bem equipado, preparado, pela engenhosidade de seus contatos. Sim, sou capaz de prever a notícia posta dentro da carta antes mesmo de ser aberta, aliás antes mesmo de ser enviada, tenho olho, vejo, ouço, entendo tudo sobre o invisível som e seus caminhos, informo por onde andam as palavras nos salões da mais alta corte, nada me escapa, pela genialidade dos meus esquemas cavei os buracos na posição do correto e em cada parede dos casarões e sobrados, nos salões de guerra, (e nem os fortes mais bem equipados com seus canhões escapam), derrubei uma insurreição de um dentista pretensioso, uma rebelião, apenas por que ouvi, antes mesmo de escrever suas cartas, antes mesmo de postarem suas subversões, acredita? Não, não acredita. Veja aqui, está vendo, é um dedo do gajo, recolhi depois de ele ter sido esquartejado, em praça pública, ora, eu não me envergonho de tal feito, mais cedo ou mais tarde iriam mesmo enterra-lo, peguei um pedaço.

(Criminoso) O quê, isso é crime, está me chamando de criminoso, por quê, o pobre homem arrancava os dentes de seus pobres pacientes e isso ninguém diz nada, era um carrasco, sanguinário, e ainda cobrava pelo feito e não pagava imposto, estava devendo, devendo à coroa, devendo ao governo, isso é honesto, é virtuoso! Entreguei o pobre homem, e tenho como lembrança do meu feito: dele eu tenho um dedo, é da praxes, é o que fora tratado...

(Tratado de traficante) O quê, tráfico? Não, como assim, acha que peguei o dedo para vender os seus pedaços, tráfico, não, não é tráfico, é apenas uma pequena lembrança do homem rebelado...

(Tráfico de influência) Tráfico do quê, da minha flatulência, pum, ora isso sim, sou um fratulente funcionário, tenho a fama de que para cada pum uma oficial e genial ideia, sou conhecido pelo mais novo transporte que a genialidade humana poderia ter inventado, sabia, a "cruzcicleta", o quê, não entendeu, a cruzcicleta, está coberta, tenho medo que esses selvagens jesuítas queiram tomar a minha invenção, obra-prima, já vi acontecer, até pagam bem, mas vivem dos louros, e isso definitivamente não é justo, eu inventei, então a obra fica com quem pertence, mesmo que ela emperre nesta selva de raízes tortas espalhadas como armadilhas infinitas para o mais bravo bandeirante, a obra é minha e fica com quem a conhece bem. 

(A obra não é sua!) O quê, o que foi que disse, a obra não é minha, ora me valha meu pai nosso senhor se eu posso com isso, que tamanha pretensão e covardia diz o gajo lá do alto de seu pontifício, sim, seu pontifício é se esconder nesses verdes variantes irritantes que não cabem numa palheta, pobres imagens pitorescas, desça daí, desça daí velho índio, que tua catequese não me convence...selvagem desça que já lhe descobri...(A obra não é sua, descubra você, ainda não sabes o que lhe enterra nesta santa terra) Santa! O que me emperra é o inferno torto de tuas raízes, ora pá, prendeu a roda da minha cruzcicleta, a mais voluptuosa invenção da engenhosidade do transporte de comunicação! (Descubra então que essa invenção não é tua) Ora deus nosso senhor, fala como o meu pai, vejam só, do alto da copa de uma árvore se esconde o malandro feito cobra no paraíso, e me atenta com sua armadilha para que eu descubra a obra que já é e sempre fora minha, ora não tem sentido, eu não vou mostrá-la a você, é segredo e não traio o meu estado e minha obra por uma manga ou uma sombra generosa.  

(Prova, prova tua obra e descubra o que tu ainda nem sabes, ela, a obra, é que é generosa) O quê, eu não vou descobri-la, ficará encoberta até que eu saia desta armadilha, e ainda há quem diga que o problema é a maçã, o problema é teu, pelo meu atraso, por impedir um alto funcionário da coroa ao exercer o seu ofício de estado, isso dá cem chibatadas se fores um negro escravo, sabia, eu tenho um importante comunicado, eu trago a boa nova, e se ele não for entregue é o fim do teu império, até o seu esconderijo será derrubado por conta de um tal cavalo, para plantar café, ora pois, pois é, não ficará uma única árvore de pé, você deveria estar preocupado, mas não, você quer a minha arma, quer que há descubra para ti já que o tempo é teu aliado. Quanto tempo, quanto tempo vive aí escondido fincado, vejo que já nem tem pés, deve ser só raiz, fiel soldado...

(E se eu fosse soldado, de todos, eu seria o general) Que pretensioso, orgulhoso, convencido é mesmo o diabo, general, qualquer homem de coragem mesmo da mais alta patente não se esconderia no céu, ficaria na linha de frente, postura de um nobre combatente, espada em brasa, empenhada no corte, (Então me cortes se fores homem) O quê? Tu desconfias que sou varão? Eu te penetro, seu bastardo sem nome! (Então me corte) Ahhhh, canalha, não se desafia assim um homem, eu sou fiel, eu sou varão, em nome do imperador, faca em ti, corto teu tronco, canalha, eu lhe corto, eu lhe mostro, mas não a minha obra, o meu ódio! Cortei!

O que é isso? O que escorre de ti? Que leite é esse, que sai de teu peito, branco, nunca vi uma dor tão pura assim... ( É leite sim, para cobrir a roda de madeira que ti transporta, para além das águas, no norte para muito além de mim, muitos índios perderão suas terras para um futuro estado brasileiro tratado em guerras) No norte,um futuro estado que não diz o nome, fala por parábola, como se provesse os sentidos... você é uma árvore santa? (Há única santidade aqui é tua ignorância, tu me deste o ódio e eu lhe devolvi, siga em frente com esta substância, esquente para além do grande encontro, para além dos que se juntam mas nunca se misturam, são, são rios, riqueza da verde mata, tão diversa que ficará conhecida a floresta, lá tu serás rei, e sem a necessidade de qualquer regra ou postura estética, nem quererá mais tua academia completa.) Como sabes, como sabes que velo pela cadeira da mais real das academias do império das belas artes cênicas. (É gesso, tua academia de belas artes) Sim, nunca é mármore, todos na corte não esculpem e ficam fazendo cena... (Fazem estátuas, mas nunca esculturas) Sim, mas eu como presidente, dono da cadeira faço que o dinheiro apareça, trago o mármore, o bronze e as tintas, para a representação necessária da sagrada família,  tu não és uma árvore santa, uma mangueira... (Eu sou uma seringueira, eu sangro e sei a alquimia da riqueza, agora vá, siga a substância e enriqueça) Ora, por um momento pensei que fostes mágica, ou deus falando comigo, eu até faria um pedido, mas se te preocupas em me deixar rico, já fazem isso com o café, tu mereces mesmo ser derrubada e suas primas serem vendidas como ouro vermelho, ensacadas até o pó! 

(Sim, eu serei mesmo derrubada e tu quer mesmo entregar aquela carta) Quero! (Acreditas mesmo que se avisar o grande homem antes mesmo da derrubada salvarás o império e ele em troca te dará o cargo tão cobiçado na academia do mistério.) Creio, sim, eu creio, tenho muito talento, quando "Ele" vires minha cruzcicleta a mais rápida para entregar uma carta, uma salvadora notícia, ele reconhecerá que é justa minha cobiça... (Tua obra?) Minha cruzcicleta, eu descubro, eu descubro para ti, mas intercedei por mim.. veja, eu que fiz, aprendi no salões da corte através dos meus buracos como se encaixa cada peça, da fofoca ao bem utilizável, da traição à vaidade de alguns condenados, fiz esta engenharia, minha obra-prima! (Então em mim confias, crês mesmo que sou uma árvore santa?) Sim, eu já ouvi falar de ti, és um padre santo, eu percebi, café, paulista, interessado na minha obra como um bélico jesuíta, por favor, desça daí e me escreva um poema na areia, uma poesia milagreira dessas de atingir o sucesso, dessas de impressionar um rei e fazer de mim um literato... (Mas como carteiro já não é o teu talento, por que não um cargo de transporte do correio brasileiro) Não sei, chefe dos carteiros, ficarei no anonimato, quem se importa com o anúncio de uma possível velha morta, ou amantes que enamorados dão fofoca, os periódicos e suas gravuras já fazem seus contratos, mas engenheiro do belo ao simples martelo, feito de ferro, sei que o teu imperador e todo mundo gosta, na academia farei a mais bela obra, a Maria! (A Maria da sagrada família?) Não, a fumaça, o trem que leva a carta, dizem que leva daqui até os confins do mundo que se chama Mogi a terra do caqui! Mas sei que ficarás ofendida, pois de teu tronco faremos carvão, mas pense que levas a notícia, por mim, por ti, pelas Cruzes,  pelo homem te sacrificas, não és Anchieta, o padre santo, eu me ajoelho. (Sim, eu desço, mas não sou Anchieta, sou "Ela") Uma mulher! O que isso? Uma mulher diante de mim! Nua! -E agora sou eu que quero saber: eu desci da árvore, mas quem é que se ajoelha? -Que empáfia, que desonra, uma índia, por isto me atirastes uma manga, mangavas de mim... -Belo trocadilho, mas se olhares no horizonte verás que já sai o navio. -Senhor, senhor, imperador, não! Da fumaça só sobrou a república! Meu deus já aconteceu a revolução! -Ao exílio o teu amigo. Não, por deus não, mulher faça alguma coisa, sei que de teu amante tu eras importante, não me recordo, mas era um bandeirante, peça tua arma, e eu com minha espada...-Eu não sou literatura, não me confunda, sou mulher e gosto de colher o meu alimento diretamente na copa, da copa de uma árvore, olhando a paisagem, nunca fui atrás de nenhum homem, branco ainda, soldado, desculpe amigo, mas não tenho solução para o seu caso.

-Está tudo perdido, a obra, o gênio e o conflito... -Não não está perdido, ponha o pau pra fora. -Hã! O que disse? -Ponha sua genitália masculina para fora de tua calça. -Mas ora, que pecado, sou um homem cristão com uma índia eu não saio, sou civilizado! -Então tire o pinto e mije na roda por entre as raízes. -Mijar, fazer xixi, por que? -Por isso, dê-me o seu pinto, agora lave o barro com tua urina, bastante até amolecer a lama e puxe a roda enquanto eu empurro tua obra! -Assim? -Isso, um dois e três salvei um branco mais uma vez. -Minha cruzcicleta está livre, soltou-se das raízes! Mulher abençoada eu te aceito! -Sim, agora vá, para bem longe de mim. -Obrigado, obrigado, bendito-seja deus que fez da mulher sua melhor obra, mas agora que já aconteceu a revolução, perdeu todo o sentido, mulher, para quem vou entregar a carta? -Eu sabia que não funcionaria, você e  essa tua obra ridícula. -Por quê, por que não, parece que aprendeste com aquele soldado e prefere um cavalo. -Não, prefiro andar com os próprios pés pelos riachos. -A é, está vendo aquele lá, lá embaixo, levaria um mês viajando a pé para alcançá-lo. -E com a sua cruzcicleta... -Em um instante estarei lá embaixo. -Então vá. -Mas como, como vou partir, deus apodreceu a roda. -É o tempo é o espaço... -Aonde vais? -Vou embora, eu sou índia, eu não tenho cruz, tenho pena, pobre homem, mas te dou uma alternativa: carregue...-Não vá, volte! Volte aqui!

Mulheres, mulheres são feias, ainda que a gente as aceite, elas dão um empurrão e depois abandonam o homem à sorte de tua própria obra, mas vão, vão, quem se importa, eu concerto, carrego, a cruz, os ombros, o incerto...à republica por certo não tem nenhum lugar pra mim, mas eu tenho uma cruz, sou até capaz de construir uma torre para o destino de um homem velho, e se podem proclamar a república, por que eu não posso me proclamar num único gesto: até lá embaixo pago meus pecados, digo que é promessa de procissão e todos eles me seguem, você vai ver, eu terei meu próprio império, Jesus, pedala, pois do aço para o progresso eu serei a lata! Vou montar uma fábrica elétrica para fazer placas para bicicletas!  

E assim, com sacrifício, o homem velho ainda carrega, mas abre uma fábrica de fazer placas para bicicletas.

fecha o pano. 

Fim.













                    

      

sábado, 1 de março de 2014

UM VELHO PALHAÇO PELADO / 2014

O Velho Palhaço Pelado, monólogo em ato único.

Pelo avesso das gavetas, um palhaço pelado deveria mudar o mundo, com a piada, engavetada, mas pelo avesso ao revés, ao revés tem muita graça, pelo avesso eu separo o ovo da clara, pelo avesso a piada deveria ter sido contada, mas cuidado que um dia ela te cala...calada! calada é a piada segura, há quem acredite que a boa piada até cura, murmura as regras duras do contrário e da um golpe no livre homem, tolo, bobo, o tempo todo para não crer na censura que é a tragédia, a tragédia é destino e não nos deixa escolha, mas não saber! Não saber é a piada certa, ignorar é dos burros, mas não saber por ingenuidade o ingênuo muda o mundo: o palhaço! Cadê a prova, o buraco, o documento que prova, anos e anos de trabalho, eu procuro tudo, até a chave do buraco do mundo...cadê?

Papéis e um guarda-chuva, onde está minha carteira de trabalho, deve estar suja, empoeirada, o registro da piada como se o riso tivesse garantia e assinatura de dar fé. Dou fé, que é engraçado. Ri desgraçado! Ri dos meus anos de dedicação e trabalho e o palhaço aqui já deveria ter sido aposentado, mas não, estou preso no limbo desta depressão, esquizofrenia, que não é crença suficiente para ter pelo menos o auxílio para um homem doente, eu nem deveria estar aqui...eu já aposentei o meu verde fosforescente de minha bandeira descrente.

Sabem, eu vivi para a pátria por uma promessa e agora, justamente agora que eu cumpri o meu dever, a pátria me nega, o direito, de estar aposentado, com meu digno descanso remunerado, mas bem, e agora, ora, ora, que piada, e não é que eu achei, achei, achei a fotocópia, xerox da minha bunda de nádegas tortas, pornografia, não senhor, mas creio que com isso não me aposento, mas empiná-la é graça, pois há quem diga que até é a piada fácil, repetida e recontada ao revés...transviado, meu palhaço marginalizado só por que meu pinto fora desviado pra não ser usado e eu fui acusado de peculato, preguiça, não tem carteira de trabalho, vagabundo deita no chão, maluco encosta no muro irmão, mãos pra cima que sem um pinto carimbado eu te levo para delegacia!

Calma senhor, eu sento e explico tudo, eu sou artista sem garantias, vivo do riso frouxo, generoso de um público caridoso, mas riso autenticado, em cartório escolhido pelo governo, e de um primo indicado pelo palácio do planalto no plano alto dos mais caros cargos de confiança, nos largos anais deste ministério paralelo que é o riso sério.  Muito sério, muito sério o senhor não viu graça, é que a palavra colocada na piada errada, algumas vezes falha, não deveria ter dito largos anais, quem sabe, relaxados... abertos talvez...,

Ai, ai seu policial...

Eu apenas quis dizer, abre-te policial, e pare de me bater que o sorriso vem, ... ai, ai que dói essa borracha não tem graça, ai, que dói as têmporas com esse telefone de orelhada, dói até pro orelhão fincado na calçada, dói seu policial, não bati, não bata, eu sei que o senhor cumpre sua promessa de me dar um tapa que a minha piada fala...

Tudo bem, eu digo...eu aposentei o meu circo e como vê...eu nada sei, mas o que quer saber?

Não fui eu que fiz aquela música, falei, nem poderia ter sido, mas joguei água para fora da bacia numa plateia de autoridades públicas por que era tudo santinho de papel picado colorido, jogado sim no gabinete do prefeito, mas aquela trova em verso na praça, o verso não era meu, muito menos aquela praça, a praça é sempre do prefeito, senhor, e com louvor, todo prefeito merece uma praça, foi o povo mesmo que prometeu, um pracinha pra chamar de seu, vossa excelência sua autoridade, quem o senhor procura, não sou eu!

Não fui eu que entreguei a piada daquele sujeito careca que desmunhecava, seu guarda, eu nem acho que ele tenha muita graça, há sim, senhor, piadas e piadas, mas as minhas são devidamente regradas na disciplina do ombro-arma, na cadência de quem não falha, no brilho do coturno amarrei a boa piada, séria, muito séria, como é o verde da bandeira representando a mata, acreditei na promessa de que se me dedicasse a pátria, um dia eu me aposentava ... Não ri, não ri seu guarda, o verde da promessa é a mata, o azul é o céu dos seus benefícios e o amarelo é o ouro dos fogos de artifício...

Sei sim, sei que foi roubada, a pátria, mas não foi por mim, ao contrário, eu lutei por ela, venci no Monte Castelo por causa justamente de uma boa anedota bem contada, fui palhaço, enrolei o jornal por dentro das botas congeladas e não há quem não ria deste improviso que salvou as nossas vidas no rigoroso inverno da italianada, essa fora a piada, em 21 de fevereiro de 1945 na quarta tentativa tomamos o monte dos alemães e vencemos a batalha.

Você ri, ri de um monte da cagada e acha que a cagada veio de mim,

Vencemos sim, vencemos e eu pude finalmente voltar para mim, marchando assim: por mais terras que eu percorra não permita deus que eu morra sem que eu volte para o lar, sem que leve por divisa esse "V" que simboliza a vitória que viráaaa! Nossa vitória final, e a mira do meu fuzil, a ração do meu bornal, a água do meu cantil, as asas do meu ideal, e as igrejas portuguesas que roubaram o ouro do Brasillll, roubaram o ouro do meu Brasillll, meu Brasil! 

Ai, ai, ai, não bate, autoridade, dói, cassete, você é português ou é doente, crente, na chinelada ou nessa corda que me amarra...e por acaso é o senhor autoridade do papa?

Dói, tudo bem eu não voltei por mim, voltei pela pátria, sou obrigado a dizer que sim, eu voltei pelo verde que restou na bandeira simbolizando a alma portuguesa, ora pá, mas é verdade que eu estive lá, é o sistema, isso com certeza, o império de Dom Pedro Segundo, que tomamos como república de independência...não acredita, acha que sou maluco, maluco é o tempo que é esquizofrênico, eu estive sim, eu estive lá sim naquele tempo, mas agora eu me aposento se eu achar aquele bendito documento eu terei dinheiro, pelo menos para fazer a feira, com certeza.

Não ri, não ri da minha feira, não ri da minha crença na aposentadoria como independência, muito menos da morte, a minha aposentadoria é o fim, por que a morte é o limite da piada, não tem graça, o primeiro deu um grito e disse que ficava, e morto eu também fico! Independência ou morte, morte do meu negro humor que me aposento do ridículo, morto eu tenho dito!

Ai, não me bata, não estou morto não, era brincadeira cara, eu vivo, vivo pra manifestar o meu humor político, não, não me mordaça, não quer que eu conte uma piada, tudo bem eu lhe apresento aquela secretária, a polaca, a ruiva de pernas longas e curvas, branca, mas não me amarra, afinal quem não se encanta com a piada fora da cerca, hein, do limite, ou o sexo tem pátria, hã, cerveja gelada e uma linda polaca, para as autoridades ela não cobra nada, pra você o sexo é completo e tudo em troca de uma carta, paga, ela tem muita graça, bela, e uma boca de geleia, suga, que faz qualquer comunista entregar tudo e todo mundo, duvida, experimente, meias vermelhas, salto alto, mãos macias de tocar suas virilhas queimando com a língua, fogo, gozo, salvo, conduto, para mim é um documento oportuno e para ela então...não!?

Por que não, o sexo é divertido, tem graça, mas não é de graça, a polaca quer o salvo-conduto para continuar se prostituindo nesta praça, ora, tudo nessa vida se paga até o palhaço humorista que contou a piada, então, goza, porra, goza! Mas não de mim, não goza de mim que eu preciso muito de um documento assim...Tudo bem, eu confesso o documento não é para ela é para mim, a polaca já morreu, dizem que foi forçosamente aposentada pela pátria, em outras palavras: assassinada, impuseram a liberdade por essa arte inventada, a arma, morta a polaca, mas livre, livre, livres são as mulheres sem seus filhos, mataram todos os meninos, mini-espiões levando os recados; eu sabia que uma hora iriam acabar com esse mercado, lucrativo para o inimigo com a informação que davam aos seus filhos, então matamos todos os meninos, matei as crianças daquele cortiço, deixei livres os meninos para que virassem depois de mortos: anjinhos, anjinhos da liberdade... vamos fazer um minuto de silêncio pelo jogo que morreu e pelas crianças que eu matei em tão tenra idade, em nome da liberdade...   

Liberdade, liberdade, liberdade é um problema grave, mas não para as espiãs comunistas, mais para os humoristas, liberdade para a piada autoritária que induz ao erro, contraditório preconceito, feio, mas todo mundo pensa assim.

Todo mundo quer o controle da obra e da corda até o palhaço malabarista que se acha engraçado fingindo que vai cair para o lado, não é pela piada e nem pelo suspense da corda sem rede, é apenas pelo gosto de ver o desespero, de ter inventado o erro e no desiquilíbrio fingido, ele derrubou muita gente da plateia naquela arquibancada, humor negro, pregou o susto e o medo, mas ainda assim fez sucesso com a vara, piada? Não. É que como já disse: todo mundo quer o controle da obra, até o aposentado do malabarista com sua vara torta.  

Não, não era torta a vara do malabarista, como sabes, ha já pegou na vara do malabarista...ai, dói autoridade, shock, não, shock é coisa de alemão! Aaaa, não tem graça, treme tudo e o coração dispara, assim meu ovo vira clara, cidadão!

O que, o que foi, não é cidadão, a sim, é cidadão, mas especial por que tem privilégios, sei, vejo pelas medalhas penduradas no peito que é melhor do que outro civil sem direitos, eu sei, conheço o privilégio, sou palhaço, tenho o privilégio de controlar o riso, sério, sim, mas sou sério, eu também controlo o circo que é a obra: o canto, o cavalo, e o mistério que te num disparo!

Mas abaixa essa arma, não aponta pra mim, e se o dedo escorrega neste gatilho vou contar anedotas para São Pedro ajoelhado no milho, vira pra lá, eu sei que controla, não precisa provar nada, sei que controla até a bala, o que, quer que eu tire a camisa, por que, vai atirar e não quer estragar meu algodão crú , ou quer ver meu peito nu, afro, descendente, cafuzo musculoso de quem já puxou muito café nos ombros, pronto, tirei a camisa, senhor, agora quer que eu pegue três sacas de café e empilhe feita trincheira que esconde e separa. Sim senhor. Eu e meus irmãos construímos essas paredes feitas de taipa de pilão no braço e não seriam três sacas de café nessa casa do caralho do café estocado que terá um dia me torturado que vai me deixar aleijado, e ainda faço o trabalho cantando, que eu sou nagô: o senhor sabe de onde eu venho, venho do morro do engenho, das terras, (Das selvas), e dos cafezais, da água fresca do coco, da choupana onde um é pouco, dois "baianos" três é demais, você sabe de onde eu venho, venho do morro do engenho...


Pronto, e agora, não acredita que sou nagô, não acredita que sou negão, quer que eu tire a calça, tudo bem, tirei.

Estou pelado, só de cuecas, mas quem se importa com roupa de baixo, quando se tem na frente um homem armado. Ri, é uma piada, é engraçado, hã, não entendi, quer que eu passe para o outro lado, deixe de ser homem e vire viado, não, mulher, polaca, ah, quer que eu te mostre a prostituta que trabalha, a solidariedade, aquela que vende numa sociedade de consumo a caridade! Solidai-nos com a mais valia, o papel da operária é o trabalho, já o valor...virou mercadoria, solidão feminista, interessa, dizem que tem as cabeças maiores do que seus peitos e por isso se perdem, mas se acham, em maquiagem unha e cabelo, cabeleireiros, porém do outro lado, liberdade capitalista  do compre um e pague na verdade dois, em prestações suaves a perder de vista, ah, então eu passo,  por um crediário passei, pulei os três sacos desta mureta, não é trincheira é cancela, compro barato este tênis importado, então me abre que eu me abro, essa foi engraçada, palhaço, concorda, concorda que assim eu te dou de quatro, por um tênis de marca sofisticado, enfia, enfia a arma, vai, mas ainda não atira, tá gelada, agora quente, come, come vai, comeee, Tec-TEc-TEC, TOc- toccc- toc-toc, espere um pouco senhor, com licença, é que minha repartição não tem ainda telefone, tem telégrafo e eu tenho que atender, é um S.O.S., código morse, a mensagem deve ser urgente: tec, tec, té, tec, toc, mãe! Mãe,  tec, tec, toc, agora não mãe, eu estou sendo torturado, só de cuecas como um negro sem carteira de trabalho, toc, toc, toc, o que hã, sei na gaveta de baixo, tem calça jeans lavada e engomada, dobrada, sei, mas agora...tec, toctoc, tectec, toc, toc, tec, tec, eu sei eu digo a verdade pro moço, falo sim, mãe, conto, conto tudo, mas agora não posso atender o seu estado, toc,toc,toc, imposto, deixei na gaveta do armário, a de baixo, tec, tec, tec, o que aumentou de novo?! Broxei, abaixe definitivamente esta arma que eu broxei!

Não vai abaixar, não quer me desapontar, vai continuar mirando esse cano pra mim, assim, duro, sem o direito de um último desejo, e qual é o meu desejo: tomar banho, estou suado, sendo torturado há pelo menos 30 anos, nessa terceira linha, nesse limbo que é esta repartição pública, empoeirada e suja, mas será possível, é possível tomar um banho, sim, de cuecas, não, sem cuecas, quer que eu fique pelado, sem nada por baixo, assim, livre, em pele e osso, molhado, tá bem, mas aviso eu sou judeu, sim, não acredita, sou circuncidado, e esquizofrênico segundo o laudo do médico privado, não, não tem problema, não tem problema molhar a cabeça de baixo, tá bem, mas abra o chuveiro que eu me abro, não vai abrir, quer que o caboclo aqui abra sozinho enquanto você com esse capuz se fecha no pinto, sim, quer que eu tome banho rápido, por que, sempre cheirei o suor do meu trabalho, e daí, quer que eu fique perfumado, mas se vai me matar que importa o cheiro do moreno gelado, ai, assim não, ai, não me bata, eu abro, por que tanta pressa, não vai me fazer embarcar naquele trem lá na terra para tomar um banho  tão longe como lá na polônia, aliás nem sei aonde fica a Polônia, mas lá na Polônia tem água pra mim, por que aqui também não tem tanta água assim, ainda mais quando é para um preto assim, mas, aliás, o que vai sair, o que vai sair daqui, não é gás monóxido de carbono, ou aquele veneno de alemão agrônomo, como no holocausto daqueles pobre homens que morreram sufocados depois dos nazistas pregarem uma mentira de banho tomado, piada de mal gosto, humor negro, e autoritário, ou pensa numa ditadura maior do que a morte, o engano, o gás tóxico para tomar banho. triste. muito triste. Há piadas que não deveriam ser contadas, humor tem mesmo limite.



Ai, já vou, já vai, eu abro, eu tiro a cueca e entro debaixo dessa água, é água, é mesmo água, gelada! Que água é essa, eu me esfrego, deixa eu vou devagarzinho, e o meu inhabuzinho encolheu, virou geladinho, sumiu, sumiu o meu menino, cadê, cadê você, meu pintinho, chega, fechei, não tomo mais, esta água está gelada de mais, pode atirar vai, pode atirar, bem na testa, pelas costas, que ninguém mais espera a morte que já não mais pondera.., o que, não concorda, a morte nunca ponderou e não pondera, ora mas por que então os espíritas de terreiro ou os de salão ficam equilibrando a razão, pois se já morreu ponderar por que então, deveriam ponderar o lado da vida, já eu, eu tinha mediunidade, mas agora não tenho mais, eu me livro dela, vai, atira, atira que nem mais a vida pondera, não quer me matar, quer, quer me matar mais de nu frontal, eu não vou me virar para a plateia, o nu também tem lado, atire assim, de lado, não, não quer ver minha bunda, mas o nu frontal é pornográfico e minha bunda é a piada engraçada, todo mundo pelado assim mostrando as nádegas é palhaço, muito engraçado, o que, não tem graça, meu cu rasgado parece um traço! Olha eu não vou me virar de frente definitivamente, mostrar o mameluco não estava no contrato, só mostro os músculos do meu braço quando carrego os sacos, sacos de café, não quer, ai essa arma, está gelada, na minha testa um soluço e você dispara...

O que quer, e se você me deixar vivo, faço um negócio contigo: eu te deixo me fazer de sua mulher, não quer, não, quer uma informação, qual é a informação que o senhor quer, eu não sei de nada não, corrupção, quem corrompeu quem, quem corrompeu o bem, ora, isso todo mundo sabe, foi a sua ética!  Ai, caralho, não bati, shock não, meu saco, dói abestado, isso corta, isso fere é de aço, quente, fura a gente, quando era no chicote eu era mais forte, está bem eu conto quem corrompeu a ética, eu conto, mas não me bati, foi a sua autoridade! Ai, ai, não bati, que eu falo, tudo bem eu digo, mamãe mandou contar tudo para o moço bonito, distinto de uniforme e medalhas, eu conto quem inventou a navalha,  eu conto até quem inventou a fachada!

Conto sim, eu sou o narrador da terceira linha, um outro estado de consciência e do alto daqui de cima, eu vi, o fluxo do tempo, meio vivo, meio morto, com esta ferida no peito, mas ainda assim eu vi o rio caudaloso, carregando os diálogos de um jogo inescrupuloso, todo tipo de promessa preparadas para não serem cumpridas, ganhar a guerra é tão vantajoso quanto perder a partida, armas apontadas para serem destruídas, indústria de fachada muito lucrativa, capitais e comunistas da guerra fria reinventando o inimigo, são eles capitalista e comunistas, os seus melhores amigos, sócios de bandidos, pagam para atirar a primeira pedra, pagam pela guerra, eu vi, em reuniões secretas, o passado e o futuro, combinando quem vive e quem morre, quem sai e quem fica, quem apodrece na miséria ou qual é a nação da vez que vai ficar rica, economia, pura fachada de mentira, crise, virtual como são todas as dívidas, democracia, só é aceita se for pelo fetiche da mercadoria,  tudo mentira, os registros, as datas, tudo combinado no rio caudaloso do ato, e você, amigo, inventando a vida espontânea, romântica, seu negro, buraco, capaz de comer a própria luz, agora que eu sei, eu lhe giro ao contrário, aponto meus ponteiros pro teu lado e senta puá, ajoelha no chão e mama canalha! Agora a cobra vai fumar!

Tá gostando, tá, a Dita é dura, quente e vermelha, engoli tudo vai, inclusive sua língua, engoli até os dentes, e a tua ética de gente, branca e loura, nordestina e moura, azul, o velho chico nu, contingentes de soldados enganados providentes, sem casa, sem guerra, sem teto, derrubaram Antônio, derrubaram o Conselheiro, e ainda dividiram com os inimigos o morro e a decepção de não terem cumprido a casa que lhes fora prometido, ah o seu governo, soldados dividindo com os próprios inimigos o que não tem jeito, a corrupção, a fome, e a primeira favela, mocinhos e bandidos, todo mundo voltou da guerra sem cavalo e sem cela, mas o seu governo, sua república, até hoje é ela, que dita:


Então já que dita: engoli, que toda loura é burra, que todo negro é ladrão, que todo judeu é canguinha, que toda mulher prostituta não é mais mocinha, engoli, então, que todo japonês é bom em matemática, que todo gay desmunheca na sala, que todo brasileiro é samba, por que não é não!

Engoliu! Que bom, palhaço, por que o palhaço é quem acredita, eu acreditei no seu estado, mas você também acreditou, você jura que não sabia que a política das promessas é não cumpri-las, assim como as promessas de que todo ouro ficaria no Brasil, na promessa de que quando voltasse do Monte Castelo se aposentava com medalhas e privilégios, que se pegasse aquele trem seria um Judeu livre de Auschwitz,  e que se lutasse em Canudos teria casa pão e vintém, nunca a pátria cumpre suas promessas por que se cumprisse não seriam promessas seriam avisos, e ainda que se registrasse o futuro ato que existe numa promessa, ainda assim não seria uma promessa seria um contrato, aprenda uma coisa palhaço a pátria trai por que nunca fora verdadeiramente soberana,  sempre fomos dependentes, portanto agora te levanta por que este é o meu final de espetáculo de nu frontal pornográfico, e quero de volta minha carteira de trabalho, e enquanto o publico aplaudi o palhaço pelado, eu mesmo me aposento, e mato este teu estado de céu azul-claro,  pá, matei! Mato também este teu céu amarelado, pá, mato o estado diverso pátrio, mato e mato, pá, pá, pá, todos os seus coloridos lados, matei, agora sim, eu viro essa cama de gato eu não tenho mais nenhuma pátria, nenhum estado, sou um palhaço aposentado e vou embora, vou dormir lá fora, no limbo da calçada , como um anjo ao relento, por que eu não tenho mais circo, comida e nem mais casa, aposentei, mas por direito saio daqui e vou buscar o dinheiro de minha aposentadoria que virou uma metralhadora de palavras, que quase foram censuradas: pa rá, pá, pá, pá, pá, pá rá pa, pá rá pa, pa ra´pá pá pa´...  PÁ, você atirou? Você me acertou, pelas costas, você me matou, atravessou o peito, o sangue nunca escorreu desse jeito, o que é isso que o chão se aproxima, por que o chão se aproxima, o chão se aproxima... aposentadoria, é a morte minha, o palhaço faleceu.


FECHA O PANO, FIM.


 










  


                

sábado, 3 de agosto de 2013

O menino em oração / conto erótico

Corria o menino pelo riacho se despedindo do milagre, quando o noviço padre, recém-ordenado, quis saber do que ele se despedia. E o menino respondeu: do milagre, do cardume prata que me morde os calcanhares querendo as sobras do meu caminho, padre, corro, do compromisso da catequese e da construção de suas torres, cruz nenhuma eu sei fazer, não empilho tijolos sobre a terra, padre, e do esforço de virar homem já conheço a enxada. Eu sei, tu corres do trabalho capital, da obrigação, mas se tu corres em vez de pescar os peixes, come o que? Mordo o vento, depois de carpir o riacho com os pés. Mentira. Ora, veja as pedras lisas padre. Você quer substituir o trabalho das águas, ou quer fugir da enxada, das obrigações de catequese, aceite e não corra, decora o pai que eu lhe dou os peixes, aceite. Não, não seu padre, eu quero voar. Mas pelo rio, pois se és um anjo, por que não pelo céu? Não conheço. Fica em cima. Eu fico em baixo correndo do milagre e do pecado. Dê a mão para a palmatória, e vê se em vês de se despedir do milagre, decora. E do pecado, faço o que? Use o perdão, confessa-te e ora. Para quem? Para o pai. Eu perdi, o meu morreu. Não por isso, ore então por você. Prefiro correr que o peixe não me alcança. Mas o peixe é o milagre por que se despedi e não pesca? Por que posso andar pelas águas até o fim do rio; e do rio o senhor não reclama de nada. Reclamar do que, o rio tem que correr. E o homem trabalha. Claro, pesca, enxada, todo mundo tem que comer. Eu voo. tenho certeza que tu não voastes ainda. Por quê? Largue de tuas asas e veja as figuras. Mulheres nuas! Eu sei, conheces? Mas já vi. Aonde,  no rio? Ao se despir. O rio que corre realmente perde o vestido, transparente nu é o riacho, ele se despi na seca e morrem de medo os peixes. Padre, quem parece ter medo é você. Não me toque. Por quê? É pecado. Então eu corro. Não corra fique e cresça. Agora quem me toca é você. Quero o milagre. Então, crês, padre, que posso dá-lo para você. Sim. Então fique nu e se deite. Por quê? Por que não amo quem se vesti. Então por que você não ama e se despi. Sim, estou nu. Inocente. Sempre. É por isso que corre, da velhice. Eu sei que todo mundo envelhece um dia padre. Não se eu beijar você. Beijou-me nos lábios padre, por quê? Dois rios que correm jovem, deveria saber da mulher. Então por que o senhor não quer saber? Sou padre. Sou homem, e por isso amo-te e banho teu corpo com minha saliva até o meio de tuas virilhas, toco-lhe a gene pelo gosto, salgado de perder a inocência. Isso é sexo. Isso é poesia. Aos olhos de deus isso não é rima. Então padre, respira e deixa. Deixei. Agora sim eu bebo todo o vinho do teu corpo. E o milagre? Corra! E o menino correu, deixando o padre na beira do rio, parado, é bem mais fácil para pegar o peixe, mas assim o homem não pesca, e pensando no pecado, o padre entardeceu, e o menino se arrependeu, disse que se a moeda era de César o milagre era de deus, não posso ficar com o que não é meu, adeus, adeus, e o menino correu pelo riacho se despedindo do milagre e do pecado, mas não por que fugia e sim por que queria ir para além da virtude e morar no mistério, mistério que era aquela tal esperança de ser possível um dia amar em liberdade.